A ECONOMIA EM PESSOA: VERBETES CONTEMPORÂNEOS

Livro revela a atualidade do pensamento econômico do poeta português

 

Escritos raros do poeta português Fernando Pessoa sobre economia e administração compõem o livro A economia em Pessoa: verbetes contemporâneos, que será relançado em março, pela Editora Zahar. A maior parte dos textos foi publicada na Revista de Comércio e Contabilidade, de Lisboa, em 1926, e são praticamente desconhecidos tanto dos economistas como dos muitos admiradores do poeta. A obra surpreende pela atualidade, evocando reflexões sobre privatização, globalização, marketing, desregulamentação, entre outros temas que inspiraram os verbetes que rebatizam, nesta edição, os títulos originais dos artigos de Pessoa.  As convicções liberais do poeta, defendidas com o ardor e o sarcasmo próprios da máquina de raciocinar pessoana, seguramente vão surpreender o leitor.

 

A edição é uma iniciativa da empresa Rio Bravo Investimentos, cujo diretor Gustavo Francoprofessor de economia da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central – foi responsável pela organização da obra, prefácio e notas. Como diz sobre a obra o poeta e acadêmico Alberto da Costa e Silva, “um poeta escreve sobre economia, e um economista sobre o poeta. A menor das surpresas é que o primeiro se revela um arguto analista econômico, e o segundo, um fino comentador literário”. Este é o segundo volume da Série Rio Bravo, inaugurada ano passado com a publicação de O papel e a baixa do câmbio, reedição do discurso histórico de Rui Barbosa, de 1891, que remete ao início da República e à luta travada então entre ortodoxia monetária e heterodoxia.

 

PESSOA EMPREENDEDOR

No prefácio de A economia em Pessoa: verbetes contemporâneos, Gustavo Franco assinala que o poeta estava excepcionalmente bem equipado para tratar de economia e administração. De um lado, por gerenciar com habilidade uma rede de cerca de setenta pseudônimos e heterônimos, com formações e qualidades as mais diversas. De outro, por ter obtido o seu sustento, em grande medida, dos 15 escritórios comerciais onde trabalhou como empregado e de sua intensa e pouco conhecida atividade como empreendedor.

 

Citando biógrafos e outras referências a Fernando Pessoa, Franco observa que – ao contrário do senso comum que na necessidade de trabalhar fora da literatura um castigo para a maior parte dos grandes escritores – a carreira de empregado e especialmente a de empresário não foi ummartíriocotidiano para o poeta. Ao contrário, ele se dedicava com entusiasmo e com gosto aos negócios, daí a extraordinária sabedoria prática que revela nos artigos que escreveu para a Revista de Comércio e Contabilidade, da qual foi um dos criadores e editores. Na verdade, Franco chega mesmo a questionar se o Pessoa descrito por seu amigo e biógrafo oficial, João Gaspar Simões, não seria, quem sabe, mais um “semi-heterônimo”, tese que encontra abriga em biografias mais recentes do poeta.

 

Nesta revista foram coletados quase todos os artigos publicados no livro A economia em Pessoa: verbetes contemporâneos. Este conjunto de textos foi republicado várias vezes em Portugal e teve uma edição no Brasil organizada pelo jornalista João Alves das Neves. A atual edição, segundo Gustavo Franco, toma certasliberdades editoriais” na busca de exaltar sua contemporaneidade. A tese da obra é de que há, ao menos, um conceito ou polêmica de nossos dias, capturado resumidamente em umverbete contemporâneo”, para cada um dos 12 textos reunidos, sendo 11 artigos e uma “entrevista” realizada a partir de uma colagem de passagens destes mesmos artigos, em 1975, por João Alves das Neves.

 

Vale mencionar que, para a ilustração desta obra, Gustavo Franco fez uma cuidadosa pesquisa iconográfica sobre o poeta e em particular sobre os temas e referências dos artigos. As passagens dos capítulos têm fotos de Pessoa em diferentes fases da vida, o que ajuda o leitor a enxergar as várias faces do poeta, algumas bem pouco conhecidas.

 

ALGUNS TEMAS

PRIVATIZAÇÃO – O tema do artigo de Pessoa é o monopólio estatal dos tabacos (conhecido como “régie”), visto de uma ótica mais genérica. É fácil ver que a privatização é a extensão contemporânea da discussão proposta pelo poeta sobre a estatização dos tabacos. Nada poderia ser mais atual.

 

GLOBALIZAÇÃO – O texto sobre a “ventilação” que o comércio traz à nação em geral e para a cultura em particular evoca os debates atuais sobre a globalização, com especial pertinência para o multiculturalismo.

 

DESREGULAMENTAÇÃO – Referindo-se às “algemas ao comércio”, Pessoa trata do protecionismo, leis trabalhistas e outros temas que cabem no debate contemporâneo sobre as chamadas “reformas de segunda geraçãoou sobre a desregulamentação, inclusive a discussão sobre a Lei Seca, com evidente parentesco com a questão atual da descriminalização da maconha.

 

MARKETING – O texto sobre a “essência do comércio” trata do que, em nossos dias, chamamos de marketing. Este artigo assinala que a empresa moderna, qualquer que seja a sua natureza, deve ter como missão ou filosofia mais básica, o “foco no cliente”.

 

CLUSTER – No texto sobreconcentração industrial”, Pessoa propõe o que anos depois seria chamado de “cluster” por Michael Porter.

 

GOVERNANÇA CORPORATIVA – O poeta alerta para a inutilidade de conselhos formados por “insiders” ou por funcionários públicos na administração de empresas. Ele defende a auditoria independente em termos que parecem os dos folhetos do nosso “Novo Mercado”.

 

BRANDING – O Pessoa empresário trata da formação de uma identidade corporativa, ou uma marca, no modo de administrar, a partir das lições de Henry Ford, que interpreta de modo bastante peculiar e próximo de algumas idéias suas.

 

BLOG – A coletânea de pequenos textos de temas variados escritos por Pessoa, começando pelas “palavras iniciais”, que inaugura o primeiro número da Revista Comercio e Contabilidade encontra afinidade em um gênero literário contemporâneo: os blogs. Na verdade, muito da obra em prosa de Pessoa parece inclinar-se para este gênero que não existia naquele tempo.

 

QWERTY – O Pessoa inventor rascunhou um novo e revolucionário modelo de teclados para máquinas de escrever, com o objetivo de facilitar a datilografia. E ao discutir mudanças no calendário levanta a questão dos “padrões”, como os tecnológicos, e como é difícil modificá-los.

 

PÓS-FORDISMO – A forma sofisticada com que o poeta aborda o problema da “organização”, algo “vivo”, “complexo” e que “evolui”, encontra paralelo no debate recente travado a partir da Escola da Regulação francesa, em torno das formas flexíveis de organização do trabalho designadas como “pós-fordistas”.

 

Sobre o livro:

A economia em Pessoa: verbetes contemporâneos

Zahar Editora

Orelha de João Alves das Neves

Apresentação: texto do poeta e Acadêmico Alberto da Costa e Silva

Formato: 16 x 23 cm

186 páginas

 

Mais informações:

Carla Assemany

SPS Comunicação

(21) 2111-2655

carla.assemany@spsbr.com.br