Uvas e jabuticabas
Resenha de “Inflation targeting, debt, and the
Brazilian experience, 1999 to 2003” coletânea organizada por Francesco
Giavazzi, Ilan Goldfajn e Santiago Herrera. MIT Press, Cambridge, 2005.
“Tudo começa com o dissenso de Washington”, disse-me um dos
participantes do projeto, fazendo graça do desejo do Banco Mundial em financiar
pesquisas sobre macroeconomia brasileira, desejo este que pode ter sido atiçado
pelas alegações, vindas do outro lado da rua, segundo as quais o FMI teria
contribuído de forma importante para o desenho das políticas macroeconômicas
brasileiras.
O fato é que os pesquisadores contratados estavam por perto no momento
em que se formava o Instituto de Estudo de Política Econômica (IEPE), fundado
na Casa das Garças, a partir da colaboração entre alguns professores do
Departamento de Economia da PUC-Rio e diversas empresas e empresários. E assim,
foi fácil organizar uma conferência internacional misturando os visitantes com alguns
dos melhores praticantes locais, o resultado da qual constitui o volume em epígrafe,
ainda a espera de tradução.
O livro revela uma tensa comunhão de interesses entre economistas
estrangeiros e locais. O sucesso desta colaboração depende de dois problemas
que já abateram muitos brasilianistas no passado, o primeiro, o fato de que o
Brasil não é para principiantes, e o segundo, o problema posto pelos
pesquisadores brasileiros, sempre muito ciumentos de seu objeto de estudo, que frequentemente
espalham jabuticabas (e também algumas uvas disfarçadas) no caminho de
pesquisadores visitantes.
Dos oito ensaios que o compõem dois e meio têm autores brasileiros, e todos
os oito comentaristas são brasileiros, pela ordem, Pedro Malan, Eduardo Loyo,
Eliana Cardoso, Joaquim Levy, Ilan Goldfajn, Rogério Werneck, Dionísio Carneiro
e Arminio Fraga; todos na posição de oferecer um “teste de realidade” para os visitantes.
Na verdade, esta é talvez a maior graça deste livro.
O primeiro ensaio escrito por Afonso Celso Pastore e Maria Cristina
Pinotti talvez seja o único a destoar deste padrão, pois oferece uma narrativa
descritiva, feita por locais, que será útil para o leitor estrangeiro.
Interessante mesmo é o que se passa a partir do capítulo 2, onde Olivier
Blanchard, catedrático do MIT, autor do mais bem sucedido livro texto de
macroeconomia para pós-graduação em língua inglesa, emprega um impressionante
repertório de técnicas de modelagem e econometria com o propósito um tanto
inesperado de demonstrar que, em condições especiais, aí incluindo algo que se
conhece na academia como “dominância fiscal”, o aumento nos juros reais, em vez
de atrair capitais, piora o risco Brasil tão fortemente que provoca saídas de capital que desvalorizam o
câmbio e produzem inflação. É como um grande intérprete internacional que nos brinda
com uma salsa achando que agradará ao público brasileiro.
O comentarista, o Diretor do Banco Central Eduardo Loyo, e também um
intérprete de peso, escolhe com cuidado as palavras: “conjectura plausível e
muito instrutiva”, mas “é pouco convincente o veredicto de que o Brasil
estivesse nesta situação”, e para tanto descobriu, inclusive, um furo no casco
das estimativas empíricas de Blanchard. Este, por sua vez, segundo se conta,
com alguma irritação teria perguntado: “por que esse pessoal de banco central é
sempre tão defensivo?”. Somos nós os ciumentos, ou foi ele que errou o alvo?
Segue-se um ensaio de uma dupla de italianos Carlo Favero e Francesco
Giavazzi, também encantados com os efeitos anômalos explorados por Blanchard,
porém de forma bem mais cuidadosa. O segundo semestre de 2002, que está na
mente de todos, de fato oferece ampla matéria prima para “paradoxos”. Fica a
sensação que o time visitante não capturou todas as dimensões do processo de
transição, o que, todavia, parece valer também para os locais, conforme observa
o próprio Pedro Malan em seu comentário sobre Pastore-Pinotti: “algum dia a
história da transição Cardoso-Lula será contada por completo”.
Os três ensaios que se seguem tratam de dívida pública. Alessandro
Missale e Francesco Giavazzi estudam a composição ótima da dívida, chegando às
conclusões usuais (mais títulos prefixados e indexados, e menos cambiais e
LFTs) ao que Joaquim Levy responde que “o ensaio não lida com o trade-off entre
a volatilidade dos pagamentos e os riscos de refinanciamento”. Com isso, está
aceitando que as sugestões são boas, só é preciso combinar com o mercado. Em
seguida, Marcio Garcia e Roberto Rigobon introduzem a variável risco nesta
escolha, o que apenas torna mais delicadas as condições de sustentabilidade da
dívida, ou mais difícil o trade-off apontado por Joaquim Levy. E o terceiro
ensaio deste módulo, de Charles Wyplosz, é sobre tema dificílimo para
visitantes ocasionais: as instituições orçamentárias, fiscais e referentes à
dívida pública, e traz propostas que Rogério Werneck considera ingênuas e
deslocadas.
No módulo final, agrupado sob o tema do risco soberano, restam dois
ensaios, o primeiro dos quais de Marcus Miller, Kannika Thampanishvong e Lei
Zhang, sobre contágio, procura explorar maneiras pelas quais os eventos na
Argentina podem deslanchar um círculo vicioso a la Branchard-Giavazzi, mas
também introduz “aprendizado bayesiano”: se a esquerda se comportar bem, as
probabilidades de “default” vão diminuindo, o mercado aprende a confiar em Lula
e tudo se arruma. Elegantíssimo modelo, mas o difícil, mais uma vez, é
reconhecer o Brasil na construção, como demonstra o minucioso comentário de
Dionísio Carneiro.
E por último, há o polêmico ensaio de Persio Arida, Edmar Bacha e André
Lara Rezende sobre “incerteza jurisdicional”. A pergunta a ser respondida é por
que os juros são tão altos no Brasil, tema que se tornou crucial, depois de
1999, pois tanto se falou que a culpa era do regime cambial que era de se
esperar que fossem muito menores com o regime de flutuação, o que não se
verificou, especialmente se observada a extraordinária melhoria nas contas
fiscais.
Os autores descartam, de início, a explicação mais simples, pertinente
ao que se conhece como “crowding out” (indisciplina fiscal combinada com
disciplina monetária), mas no fundo trabalham com as conseqüências desta situação. Na verdade, é fácil identificar o
parentesco entre a “incerteza jurisdicional” com o que, no passado, chamava-se “repressão
financeira”, pois trata-se, ao fim das contas, do mau uso das instituições,
leis e regulamentos para criar tributação disfarçada e/ou transferências de
recursos para o setor público em detrimento das finanças privadas.
Os comentários a este último ensaio, feitos por Armínio Fraga, podem ter
trazido alívio aos visitantes estrangeiros. Tal como os outros comentaristas
locais, a maioria dos quais trazendo os pés dos brasilianistas para o chão,
Arminio afirma que “permanece convencido que a evidência favorece as
explicações mais convencionais [para o problema dos juros]”. Temos jabuticabas
sim, mas também temos muitas uvas, como em qualquer parte.