05/06/2008 - 12:22
Pensamento Econômico: Um balanço necessário
A resenha abaixo, sobre o livro Ensaios de história do
pensamento econômico no Brasil Contemporâneo, da Ordem dos Economistas do
Brasil e Editora Atlas, de autoria do prof. Rui Granziera,
foi publicado pela revista Estudos Avançados da USP, n.o 62.
Pensamento Econômico: Um balanço necessário
A representação da dinâmica econômica, que François Quesnay ofereceu ao conhecimento universal em 1758, pode
sem dúvida ser apontado como o marco inicial de uma nova ciência. Ali está
presente a circularidade da renda e a sua
realimentação para um novo período de tempo. Ali também se acham as amarras da
interdependência dos vários setores em que se divide a sociedade voltada à
produção.
Esse conhecimento, por certo bastante abstrato, ficou
durante muito tempo distante da cultura brasileira, entorpecida a principio
pela escravidão e mais tarde, quando abolida esta, como
resultado de uma aceitação geral de que a vocação era a continuidade do
passado, ou seja ,trabalhar para exportar produtos da terra .
O poder incontrastável dos agentes que lidavam com as
exportações não deixava dúvidas ao espírito leigo de que aquele era o único
caminho para o enriquecimento. Acontece que a reiteração secular desse
entendimento impedia que o fluxo da renda aparecesse para todo o conjunto
social, ficando, na melhor das hipóteses, ao nível das percepções individuais.
Ao nível social o destino exportador era uma “lei natural”.
Nenhuma abstração teórica teve lugar, limitando-se o
pensamento a opiniões sobre a taxa cambial, indicador supremo de toda saúde da
nação, de onde derivavam as observações, mesmo as mais astuciosas.
Assim a oportunidade de surpreender os mecanismos fundadores
da ciência econômica não surgia, mesmo depois do aparecimento das fábricas. Por
isso a Economia, a nova ciência, permaneceu na obscuridade até o fim da Segunda
Guerra Mundial.
A volumosa publicação Ensaios de História do Pensamento
Econômico no Brasil Contemporâneo,
rica edição da Ordem dos Economistas do Brasil e Editora Atlas , organizada
por Tamás Szmrecsányi e
Concebido em quatro prismas (Correntes Teóricas, Temas em
Debate, Canais Institucionais e Figuras Representativas) o livro, de 464
páginas, é um balanço dessa produção durante 50 anos, onde o país não só viu
recuperado o atraso nessa disciplina, como deu contribuições inéditas ao
pensamento universal.
Esse traço, por certo o mais justificado de exaltação entre
nós, adveio da circunstancia de que as “figuras representativas” não eram
espíritos essencialmente acadêmicos, antes foram atraídos fortemente pela praxis do poder e não raro usaram a criatividade para
superar problemas do governo.
E como o país apresentava características ímpares dentro da historia universal,
herdadas de seu passado não menos singular, o resultado foi uma produção de um
pensamento muitas vezes original. Materializava-se, quase sempre, ao nível da
Política Econômica, versando, durante décadas, sobre como se alcançar o tão
almejado “desenvolvimento”.
Nessa produção, dois temas foram dominantes durante a maior
parte desses 50 anos: o tema da inflação – estabilidade, e o do planejamento -
industrialização.
Em torno desses dois conjuntos alinharam-se pensadores das
mais diferentes filiações teóricas, desde os liberais como Gudin,
Bulhões e Roberto Campos até os mais notórios adeptos do intervencionismo
estatal, como Celso Furtado, Rômulo de Almeida e Paul Singer.
O prisma que abre os ensaios é o das Correntes Teóricas. Ali
o leitor encontrará a consagração acadêmica da economia neo-clássica, edificada pela influencia dos Estados Unidos,
ensaio de Eleutério Prado. Em seguida a produção original da Cepal no momento mesmo em que se deu aquela consagração, de
autoria de Renato Colistete; de autoria de Maurício
Coutinho, a produção de inspiração marxista e finalmente a síntese atualizada
de todas essas correntes, sob o título de “Ecletismos em Dissenso”, ensaio
criativo de
Neste último, o autor mostra os esforços (bem sucedidos)
realizados pela inteligência econômica para dar uma consistência doméstica aos
preceitos do Consenso de Washington: vale dizer, uma inserção na globalização
sem a perda da perspectiva dos interesses nacionais estratégicos.
A atualidade e a importância dessa
produção fica evidente quando se sabe que o governo brasileiro atual
(2008) procura pautar sua política econômica por ações que levam em conta essas
recomendações, notadamente as que recuperam os interesses industriais, que
ficaram fora da agenda governamental por muitos anos .
A pesquisa original sobre a natureza da inflação,
especialmente levada a cabo na Unicamp, é também um dos pontos de relevo do
ensaio.
O ensaio que leva o título um tanto irônico de “Incursões
Marxistas”, dá ao leitor um mapa dos descaminhos do marxismo para enfrentar as
questões concretas da vida econômica brasileira. Esse bloqueio deveu-se,
segundo Mauricio Coutinho, o autor, muito mais às amarras aos dogmas, que
impediam um novo olhar sobre a realidade, do que à complexidade ímpar dessa
mesma realidade. Exceção nesse passo, como fica exposto,
foi o pensamento independente de Paul Singer.
O segundo prisma é o dos Temas
A novidade oportuna neste bloco foi a
sistematização de uma produção intelectual a partir de um novo foco: o do
trabalho.
Essa nova sistematização emerge também da crise, quando o
trabalho informal ganha peso e fragiliza ainda mais as finanças do Estado.
De qualquer modo, é digno de nota que o trabalho, por
excelência a face social da economia, usualmente eclipsado pelos conceitos de
mão de obra, ou de fator de produção, venha se firmando cada vez mais como
objeto independente de estudo, abrindo as portas para o reencontro da ciência econômica com o
conjunto das ciências humanas.
É como se o passivo histórico da escravidão e da pobreza do
homem branco, que fechava para a política econômica a questão do trabalho,
fosse agora resgatado com
força represada.
É bem verdade que remonta à Formação Econômica do Brasil, de
Celso Furtado, a primeira introdução consciente da questão do trabalho
associada à dinâmica econômica. Até então a heroína era a mercadoria tangível.
Mas a partir dos anos 70, o problema nas ruas é que deu
força ao novo enfoque. E a questão impõe imediatamente a consideração racional
de outras
duas: a da distribuição de renda e a da
tecnologia, com o que se abrem as portas
para a crítica do modelo global , como a realizada por
Hoje esse enfoque se converteu na ante-–sala das políticas
sociais e no terreno fértil para a discussão sobre qual modelo de crescimento é
o mais adequado para a sobrevida dos valores éticos e humanos do trabalho. Tem
razão Cláudio Dedecca, o autor, quando faz alusão à
necessidade do ambiente democrático para que seus frutos apareçam.
Outros temas relevantes também aparecem com tratamento
bastante adequado. Destaca-se, nesse passo, o das Finanças Publicas e o Custeio
do Estado, de Maria Helena Zockun e Amaury Gremaud , um verdadeiro guia introdutório para a Reforma
Tributária, tornada agora mais premente com o fim da cobrança da CPMF.
Ainda nesse segundo prisma, estão
apresentados o setor agropecuário, por
O terceiro prisma, Canais Institucionais, é muito original:
São listadas dez instituições que no período foram as
usinas de toda a produção, cada qual com sua trajetória e especificidade,
incluindo-se nesse rol uma revista que fez história , a Revista de Economia
Política, apresentada por Arthur Barrinuevo Filho, e
um balanço das dificuldades da produção nordestina, que por força de críticas
construtivas como a apresentada por Paulo Henrique de Almeida, pode ser
considerada hoje em processo de superação.
Desse prisma é, no entanto, forçoso destacar e se alongar
sobre as originalidades trazidas pela reflexão de Carlos Lessa e Fabio Earp, ao apresentarem o complexo universo que envolveu a
criação do Instituto de Economia da UFRJ, em meio a indagações taxonômicas onde
se pode descobrir funções inauditas do Estado, que
pautaram as relações entre a economia e a política. Uma leitura que não deixará
insensível o estudante de Economia. É também um trabalho de cunho
epistemológico, que pode servir de ponto de partida para um estudo mais amplo e
demorado sobre os problemas que afetam a produção da ciência econômica.
Do mesmo passo é o ensaio justificadamente nostálgico de
João Paulo dos Reis Velloso, ao relembrar o nascimento do seu bem sucedido
IPEA.
De tonalidade agradavelmente coloquial é o ensaio de Gustavo
Franco, em que testemunha o desabrochar da pós-graduação na PUC do Rio de
Janeiro. Com fortes traços autobiográficos, o autor ilustra as tormentas que
podem assaltar os estudantes, quando se encontram, de repente, entre a fonte
acadêmica e a escola da vida, do que muitos fazem um verdadeiro dilema. Esse
não parece ter sido o problema do autor, mas é sabido que a resolução desse
dilema pode empurrar o futuro economista para esta ou aquela escola de
pensamento. De qualquer forma a sua leitura deixa rastros para meditação.
“A área de Economia tem a distinção de ter sido a pioneira
no Brasil na promoção, de forma institucionalizada, de uma articulação entre
pesquisadores, centros de ensino e pesquisa, e órgãos governamentais”.
Com dessas palavras, Flávio Versiani
inicia seu trabalho sobre a ANPEC, a associação que propulsou a pesquisa na
área e que faz jus aos louros do pioneirismo.
Seu histórico é relevante, pois ressalta o amadurecimento de
seus membros, qualidade responsável pela festejada longevidade da associação.
As trajetórias antagônicas das instituições no campo da
doutrina dão provas do pluralismo saudável e do crescimento intelectual, o
maior legado que preside a produção de conhecimento na área de Economia.
Dois exemplos dessas trajetórias : a Sociedade Brasileira de
Economia e Sociologia Rural e a Fundação de Economia e Estatística,
apresentadas respectivamente por Amílcar Baiardi e
Enéas de Sousa.
Os dois principais centros de São Paulo, responsáveis por
grande parte da produção recente em Economia, a Fea
/Usp e o IE- Unicamp, são apresentados Gilson Garófalo- Juarez Rizzieri e
Wilson Cano, respectivamente . Aquele, mais antigo, rende justa homenagem,
através dos apresentadores, à grande historiadora Alice Canabrava, dentre
muitos outros que ali se formaram e se celebrizaram. O mais recente, o da
Unicamp, também traz a justa homenagem ao educador- reitor Zeferino Vaz. Ambos
trazem inventários da produção acadêmica, que podem servir de orientação para
estudantes de São Paulo e de outros estados.
O quarto e último prisma é o das Figuras Representativas de
toda a produção desses 50 anos. Cada uma delas pode ser identificada por um
traço distintivo, mas todas elas ficaram marcadas pelo vigor próprio daqueles
que atuam sob as forças da crença honesta, limpamente utópica.
Na extensa apresentação da obra de Eugenio Gudin ,
e na da evolução do
pensamento de Octávio Gouveia de Bulhões, assinadas respectivamente por Ricardo
Bielschowsky e Fausto Saretta,
o leitor pode tomar
Nesse passo deve-se reconhecer que Bulhões fez escola, já
que o seu comportamento ético foi reproduzido mais tarde pelas duas outras
figuras maiores desse pensamento, Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen, apresentados
no livro respectivamente por Maria Alejandra Caporali Madi e Rubens Penha Cysne.
As figuras representativas do outro lado, isto é, do que se
convencionou, num dado momento da história, chamar de estruturalistas, são
Celso Furtado, apresentado por Tamás Szmrecsányi, Maria da Conceição Tavares, por Maria Silvia
Possas, Rômulo Almeida, por
André Tosi Furtado e Paul Singer, apresentado por Alfredo Costa
Filho.
Entre esses dois blocos de pensamento, frequentemente
antagônicos, ainda temos duas figuras representativas
da originalidade e da independência: Ignácio Rangel e Delfim Netto.
Apresentados respectivamente por Fernando Pedrão e
O leitor perceberá, ao longo da leitura dos ensaios de
apresentação das dez figuras representativas, um particular encantamento do
apresentador pelo apresentado. Esse
sentimento que transborda da linguagem indica a boa literatura e é sempre bem-vindo,
pois traz o realce dos pilares da obra de cada um a bordo da emoção, que denota
a participação do ensaísta na história vivida.
Assim o leitor passará pela produtividade e pelo
pleno-emprego de Gudin sem qualquer privação
literária que normalmente esses conceitos sugerem ao leigo. Passará pela
estabilidade monetária de
Bulhões e o encontrará sempre flexível e criativo na ação.
Terá diante de si a racionalidade exacerbada de Roberto
Campos, mas também o analista que introduzia psicologia e cultura nas suas
equações. Encontrará um Mario Henrique Simonsen substancialmente teórico
Com Rômulo Almeida, poderá o leitor descortinar a importância
da economia regional e mesmo os progressos teóricos que engendrou. Com Celso
Furtado, repassar os desafios do sub-desenvolvimento,
os quais sempre transformou em celeiro teórico. Com Maria da Conceição Tavares,
lembrar, como os mestres clássicos, que a distribuição de renda continua sendo
a questão central do edifício teórico da Economia. E finalmente, reencontrar
Paul Singer, já reverenciado no início do livro, e percorrer o árduo e muitas
vezes imprevisível caminho para o socialismo.
Dos mais originais, Delfim e Rangel,
poderá o leitor relembrar que o primeiro teve, paradoxalmente, para a
ação prática, a escola da história econômica, à qual retribuiu com o seu
obrigatório livro sobre o café. O segundo, tributário da História na
perspectiva marxista, debruçou-se, também paradoxalmente, sobre o problema da
inflação como poucos.
Enfim, um mundo racional que tem razões que a própria razão
deixa ao largo. Desse mundo, que também é parte do domínio da utopia, podemos
ficar com os caracteres mais pessoais que deram corpo, cor e força ao
pensamento econômico: a
cautela conservadora de Gudin, o
reformismo esclarecido de Bulhões, a atuação obstinada de Rômulo, a
originalidade radical de Rangel, o pragmatismo consistente de Roberto Campos, a
profundidade apaixonada de Celso Furtado,o didatismo humano de Simonsen, a
consciência política de Delfim, a
lucidez vibrante de Maria da Conceição e o humanismo social de Paul Singer.
São os traços distintivos que estruturaram o conjunto da
Economia brasileira nestes 50 anos, que emergem dos trabalhos aqui
apresentados.
Dez figuras representativas do pensamento econômico
brasileiro se descortinam ao leitor, e seus apresentadores procuraram apontar
suas filiações, suas diferenças e suas principais criações. Em retrospectiva,
agora podemos ultrapassar a produção, os feitos e até as idiossincrasias, e
reconhecer que essa trajetória teve muito de amor ao Brasil.
Rui Guilherme Granziera
Dezembro de 2007