FSP, 14.01.2007
Crítica/compilação
Coletânea traz Fernando Pessoa como
defensor do liberalismo
VINICIUS MOTA
EDITOR
DE OPINIÃO
Quando o liberalismo submergia, Fernando Pessoa lhe prestou efêmera mas sólida homenagem.
Vale a pena ouvir o poeta falar de novo, depois que a doutrina retornou à
superfície com a força dos fenômenos naturais.
A proposta é de
"Governança corporativa", "privatização",
globalização", "clusters", "branding"
são alguns dos termos fora do tempo de Pessoa que vieram, pela pena de Franco,
dar mote aos textos do poeta. O uso desse anacronismo provocativo produz
resultados interessantes.
Desregulamentação
"Contra as Algemas no Comércio" é o artigo que melhor cumpre o
programa de Franco.
Veste à perfeição o figurino "Desregulamentação" do título dado pelo
organizador. Fosse publicado hoje em uma revista como a britânica "The Economist", ninguém
estranharia.
Fernando Pessoa condena a restrição, pelo Estado, de qualquer tipo de comércio.
Barrar importações de artigos de luxo não evita a desvalorização da moeda, pois
os outros países tendem a fazer o mesmo.
"Resultado final: prejuízo para o importador; nenhuma influência no
câmbio; prejuízo para o exportador; irritação do consumidor." Todo entrave
à troca livre prejudica a população, diz Pessoa. Franco identifica no poeta o
"moderníssimo apelo aos "interesses difusos", consumidores e
contribuintes como vítimas contumazes do voluntarismo estatal".
A atualidade de Pessoa como polemista liberal tem suas explicações. Uma diz
respeito ao caráter algo genérico das discussões. A "Revista de Comércio e
Contabilidade", para a qual o poeta escreveu a maioria dos textos,
alvejava um público devotado a coisas práticas. Daí a linguagem leve, as
narrativas alegóricas, os conselhos e os aforismos de auto-ajuda.
Além disso, o poeta passou a juventude em colônias inglesas sul-africanas.
Formou-se em escola britânica e estudou comércio. Adulto, não viveu das artes,
mas de cuidar da correspondência estrangeira e de traduções em firmas
comerciais.
A melhor tradição liberal britânica fala nos textos de Pessoa sobre comércio.
"Quanto mais o Estado intervém na vida espontânea da sociedade, mais risco
há de a estar prejudicando", poderia vir de Adam Smith ou John Stuart
Mill. O artigo sobre "as algemas" poderia ser assinado por Herbert
Spencer (é inspirado em "O Homem contra o Estado",
de 1884).
O curioso é que Pessoa, em 1926, pregava no deserto. Desde 1870, a hegemonia
das idéias e das instituições liberais vinha sendo solapada. A Revolução Russa
e a Grande Guerra eram apenas os golpes mais recentes.
Ainda sobreviriam a devastadora crise econômica de 1929 e o auge das ditaduras
fascistas.
Pessoa notava a transformação. "O aparecimento de concorrências nacionais
sobrepondo-se às individuais e o desenvolvimento do princípio sindical"
marcavam, dizia, a novíssima etapa da evolução do comércio. Mas, pelo visto,
ele não se acomodava àquela onda; era um homem de outro tempo.
Encerrou logo a carreira de articulista econômico e foi cuidar de poesia. De
volta, 80 anos depois, o Fernando Pessoa comerciante já não fala sozinho.
A ECONOMIA EM PESSOA
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Organização:
Editora: Reler
Quanto: R$ 44 (186 págs.)