24 de janeiro de 1993
Folha de São Paulo
As reservas e as estradas
O paciente com leucemia jaz
desacordado sobre a cama e o patriarca
da família apresenta um renomado especialista à junta médica até então
responsável pelo doente. O especialista, profissional imensamente experiente,
arregala os olhos detrás dos óculos fundo-de-garrafa, sacode suas gordas
bochechas e sugere que o paciente deve movimentar-se, tomar sol, fazer
“jogging”, gastar suas últimas reservas de energia em um ousado e inusitado
tratamento.
A equipe médica, surpreendida,
se vê “de saia justa”. Os piores instintos do patriarca parecem aflorar. A
família se assanha com a perspectiva de encerrar um longo período de
austeridade e convalescença. Há otimismo no ar.
Os médicos, ainda pasmos,
cochicham entre si: como é que o dr. Golfinho (o especialista) nos inventa um
tratamento desses? Certamente não por convicção heterodoxa: ele jamais
recomendaria algo assim, fosse ele o responsável pelo doente.
Por que então a sugestão irresponsável?
Q que tem em mente o dr. Golfinho?
Os médicos sabem que o dr.
Golfinho se tornou, por merecimento ou pelas artes da mídia, pouco importa, o
maior de todos os frasistas maliciosos em um pais de desconfiados e línguas
venenosas.
O homem do nó em pingo d'água e
outras proezas. Enxergam-lhe dotes de Maquiavel, até quando declama trechos do “Pequeno
Príncipe”.
Mas terá realmente alguma coisa
em mente o dr. Golfinho, ou não estará apenas brincando de Rasputin, soprando,
por puro enfado, barbaridades nos ouvidos de um czar ensandecido?
Ou não estará posando de artista
de vanguarda, daqueles que embrulham uma montanha ou uma ponte, confundindo as obviedades
do cotidiano e ninguém entende porque.
Pois bem. Volta o dr. Golfinho
à sua clínica e o doente, resignado, assiste aos médicos lutando para convencer
ao patriarca que torrar as reservas consertando as estradas não é bom negócio.
O desânimo é indisfarçável. Na
semana anterior, um outro especialista, consultado pela família. tinha dito que
se podia consertar as estradas com a correção monetária que o Banco Central
(BC) paga ao Tesouro.
Além disso, discute-se também a
pena de morte, o preço dos remédios, um ajuste fiscal de mentirinha. Até onde
iremos com as excentricidades?