31 de janeiro de 1993
Folha de São Paulo
A proposta do ex-ministro
Delfim Netto, hoje deputado federal (PDS-SP), de usar parte das reservas internacionais
para a recuperação das estradas, por mim discutido na coluna da semana passada,
despertou um rosário de críticas. Não registrei, nos primeiros dias, manifestações
favoráveis da parte de economistas e, por conta disso, usei em meu artigo sobre
o assunto a imagem de um renomado especialista propondo um tratamento exótico
para um doente com leucemia, com isso provocando surpresa nos médicos
responsáveis. Meu deselegante artigo não tratou do mérito da questão mas apenas
dessa curiosa situação: um grande economista sugerindo uma medida que a profissão
em peso tomou como irresponsável. A unanimidade dos economistas, como também a
dos médicos, ou dos juristas - cada qual, evidentemente, em sua área - pode ser
burra mas certamente quer dizer alguma coisa.
Achei
interessante e reveladora a imagem de um país com leucemia, pois é na presença
de doenças dessa gravidade que se observam inclinações para as soluções místicas,
milagres e heterodoxias. Todo o problema é que doenças realmente sérias, como a
crise fiscal que enfrentamos não comportam mais estrepolias. Quando a nossa situação
fiscal, e também externa, eram confortáveis no começo dos 70, químicas como
essa, das reservas, funcionavam e eram praticadas com grande desenvoltura. Mas,
de esperteza em esperteza, a saúde fiscal do país foi piorando até atingirmos o
fim dos anos 80 numa situação de hiperinflação, caos fiscal e desagregação
ética na gestão da coisa pública.
Pode
ser arrogância minha, como sugere o ex-ministro, mas me parece consensual que no
Brasil dos anos 90 não cabem mais os truques de quando as políticas públicas
estavam repletas de áreas cinzentas, contabilidade criativa e feitiçaria
financeira. Fomos longe demais nessa senda, como bem se sabe. Precisamos mudar.
A política econômica para nos tirar desse buraco terá necessariamente de abusar
de transparência, regras simples, finanças sadias, economia de mercado,
abertura econômica. Coisas simples, confiáveis e honestas. A “indigência mental”,
está na incapacidade de perceber essa mudança de agenda, ou em se escapar do
chamado para o cemitério de elefantes, fenômenos que ocorrem com aqueles que
viveram um passado que não quer morrer.