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RIO DE JANEIRO, Rio de Janeiro - Uma coletânea de crônicas de
Machado de Assis sobre temas econômicos compõe o livro O olhar oblíquo do acionista, que acaba de ser lançado pela Jorge Zahar Editores e
também, em uma edição especial, restrita a clientes da Rio
Bravo, pela Reler Editora. São 39 crônicas, duas delas em forma de versos,
garimpadas pelo economista Gustavo
Franco dentre as 600 que Machado escreveu. Os textos tratam dos grandes temas
e polêmicas econômicas das duas últimas décadas do século XIX, começando pela
preguiçosa rotina do Império, passando, logo a seguir, pela Abolição, pela
República e pela sucessão de reformas modernizantes
aí introduzidas. Machado também dedica muita atenção às reformas bancárias, à
euforia especulativa, conhecida como "o Encilhamento", e às crises
posteriores no câmbio, nos bancos e nas finanças públicas. No prefácio, e em
pequenas introduções a cada um dos capítulos, Franco situa as
crônicas no fluxo de eventos da história econômica, destaca o
privilégio que é ter Machado a tratar de uma época tão rica de dramas
pequenos e grandes em torno da economia e mostra, entre outras curiosidades,
as agruras de Machado como investidor.
A edição é uma iniciativa da empresa Rio Bravo, da qual Gustavo Franco é sócio fundador
e diretor. Este é o terceiro volume de uma série patrocinada pela
companhia, cujo objetivo é buscar visões originais e inusitadas de grandes
personalidades sobre temas econômicos e financeiros. A coleção foi inaugurada
em 2005 com a publicação de O papel e a baixa do câmbio,
reedição do discurso histórico de Rui Barbosa em 1891, que remete ao
início da República e à luta já travada então entre ortodoxia monetária e
heterodoxia. Para o segundo título, foram reproduzidos e comentados alguns
ensaios sobre temas econômicos do poeta português Fernando
Pessoa, conhecido pelos seus "heterônimos", e que parece revelar
mais um "outro" através desses escritos. A economia em Pessoa, em
razão da qualidade e atualidade do texto pessoano,
foi muito bem acolhida pelo público e teve uma segunda edição pela Jorge Zahar Editores.
Acionista-machadiano
Machado de Assis escreveu crônicas semanais, começando em 1859, ao longo de
mais de quarenta anos, e com freqüência maior do que foi notado por seus
editores tratou de economia. Com efeito, havia ocasiões onde este era o
assunto dominante, e a surpresa é perceber que o olhar machadiano sobre os
assuntos da economia nada tinha de ingênuo ou deslocado. As crônicas que
compõem a coletânea foram escritas entre 1883 e 1900, época de imensas
transformações na economia brasileira. É nada menos que um "privilégio
historiográfico", como diz Franco no prefácio de "O olhar obliquo
do acionista", que o leitor disponha de uma resenha dos grandes
acontecimentos econômicos feita pelo nosso maior escritor.
Mais que isso, Gustavo Franco
observa que, uma vez colocadas juntas, as crônicas "econômicas"
parecem formar um enredo, uma história cujo personagem central, o acionista,
sempre se apresentou como um pequeno mistério para os estudiosos da obra de
Machado de Assis. O acionista, "uma das figuras mais equívocas da
modernidade", como diz Sergio Paulo Rouanet na
sua apresentação à coletânea, adquire sentido muito especial na crônica machadiana,
pois serve como alegoria para um olhar efetivamente oblíquo sobre a atividade
empresarial no Brasil do final do século XIX. O acionista machadiano não tem
parentesco com o de nossos dias, tampouco se preocupa com as boas práticas de
governança corporativa. Pelo contrário, este acionista "se importa mais
com os dividendos do que com os divisores (administradores)", como
observa em "Eu, acionista do Banco do Brasil", de 10 de fevereiro
de 1888, escrito em forma de verso e assinada por um dos pseudônimos do
autor, Malvólio.
O acionista, na verdade, é um súdito do Imperador, alguém que compreende que
o capitalismo brasileiro da época era "uma idéia fora lugar", uma
máscara sobre uma economia composta de concessões e privilégios todos
emanados do Imperador, ou do Estado mais genericamente. O acionista é, na
verdade, um rentista, razão pela qual não há por
que molestá-lo com os rituais societários, uma vez que tudo é decidido pelo
Imperador. Como observado por Franco em seu prefácio, esse "capitalismo
de político", como na expressão de Raymundo Faoro, ou esta "nação
mercantilista", como a descreveu Jorge
Caldeira, ainda está vivo entre nós, e daí a curiosa atualidade do
"acionista" machadiano.
Este acionista preguiçoso e desinteressado é violentamente sacudido pelo
surto de modernização que se inicia com a República e que parece alterar de
forma radical o modo como as empresas se formavam e
se desenvolviam. Machado trata de forma maravilhosamente oblíqua dos dilemas
da modernização e das grandes polêmicas envolvendo a política, a moeda e os
bancos. Seu olhar irônico alcança a Abolição, o bonde elétrico, a demolição
dos cortiços, a explosão especulativa, o papel moeda, a ascensão da burguesia
argentaria, as falcatruas do Encilhamento, incluídas as debêntures da
Companhia Geral das Estradas de Ferro, as fusões e liquidações bancárias, os
mistérios do câmbio, a inflação, tudo isso visto como um enredo que retorna
ao ponto de partida. As promessas de Progresso trazidas pela República
forneceram material extraordinário para este cronista, tanto quanto a
frustração desses desígnios.
Na última das crônicas da coletânea, a penúltima que escreveu na Gazeta em
1900, Machado encerra o ciclo do acionista voltando ao ponto de partida:
nesta crônica Machado relata o comentário que ouviu
de um conhecido 30 anos antes, na porta do Banco Rural e Hipotecário, que
falira naquela semana: "Que a diretoria administre, vá, mas que lhe tome
o tempo em prestar-lhe contas, é demais. Preste dividendos, são contas vivas.
Não há banco mau se dá dividendos."
Os testamentos e as finanças machadianas
Por vezes o cronista parece confessar-se acionista do Banco do Brasil, o
qual, efetivamente, pagou dividendos de forma religiosa, mesmo quando a
partir de lucros fictícios. Não é certo, todavia, que Machado tenha sido
acionista do Banco do Brasil, mas em 1895, atraído pelos juros pagos pela
jovem República, Machado de Assis adquiriu apólices de um empréstimo
nacional, o qual, desafortunadamente, seria alcançado pela moratória de 1898,
ano em que escreveu seu primeiro testamento, aos cinqüenta e nove anos,
legando as apólices, seu principal patrimônio, para sua esposa
Carolina. Gustavo Franco
reproduz os dois testamentos manuscritos pelo escritor, o segundo feito em
1906, depois do falecimento de Carolina, onde declara como herdeira, como se
sabe, a sua sobrinha Laura. Menos notado, contudo é o fato de que, devido às
moratórias posteriores à de 1898, em 1914 e 1931, o patrimônio deixado para a
menina Laura foi devastado.
Privilégio historiográfico
Segundo o filósofo e membro da Academia Brasileira de Letras, Sergio Paulo Rouanet, "Gustavo
Franco introduz e comenta os textos de Machado de Assis, contextualizando os
fatos que ganharam a atenção e o olhar do cronista.
A economia em Machado de Assis é, assim, um privilégio historiográfico, a
chance de visitar o passado brasileiro, em um momento rico e tumultuado, com
a companhia de um dos grandes escritores da literatura mundial e um dos mais
brilhantes economistas do país".
O olhar oblíquo do acionista, editado pela Reler,
é uma edição especial destinada a clientes da Rio Bravo. A edição comercial,
disponível nas livrarias, editada pela Jorge
Zahar, tem como título A economia em Machado de
Assis: o olhar oblíquo do acionista (R$ 44,00).
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