Fernando Pessoa, economista

 

ROBERTO CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE

 

           

            O recente livro  A Economias em Pessoa: verbetes contemporâneos (organização, prefácio e notas de Gustavo H.B. Franco, ex-presidente do Banco Central, Reler, Rio de Janeiro, 2006) atualiza com competência e sensibilidade a leitura dos penetrantes e originais artigos de Fernando Pessoa sobre economia, quase todos publicados em 1926.

 

            Gustavo Franco tem razão: o interesse de Pessoa por economia pouco teve de acidental. Em nota biográfica escrita em 1935, meses antes de morrer, o maior poeta português do século passado, ao referir-se a sua profissão, esclareceu: “a designação mais própria seria “tradutor”, a mais exata a de “correspondente estrangeiro em casas comerciais”,  acrescentando: “O ser poeta e escritor não constitui profissão mas vocação”. Foi em periódico empreendido e editado por ele, em parceria com o cunhado Francisco Caetano Dias, a Revista de Comércio e Contabilidade, que seus escritos econômicos vieram à luz. É ademais relevante o fato de Fernando Pessoa ter assinado esses artigos. Pessoa ele mesmo, o ortônimo – e não um, ou mais de um, dos inúmeros autores heterônimos que criou ao longo de sua vida e obra: projeções, desdobramentos, disfarces, máscaras, fugas dele próprio. Sendo porém arriscado garantir que esse extraordinário autor não tenha se inspirado neles para exercitar na economia sua auto-propalada “qualidade de arranjar argumentos para defender todas as teorias, mesmo as mais absurdas”.

 

            Ao enfeixar os textos de interesse econômico de Pessoa em títulos que adotam a terminologia econômica de hoje – além de produzir sobre eles sugestivos “verbetes contemporâneos” -, Gustavo Franco patenteia a atualidade quase mágica deles, decorridos mais de 80 anos de publicação. Eles tratam, com rigor e pertinência, sobre temas coo privatização, globalização, desregulamentação, marketing, clusters, pós-fordismo, governança corporativa, branding, qwerty, e-mail, blog. Encerrando a coletânea rica entrevista com Fernando Pessoa montada por João Alves das Neves sobre o livro póstumo do poeta intitulado Textos para dirigentes de empresas (Eduardo Freitas da Costa, org., Lisboa, Cinevoz, 1969).

 

            As premonições de Fernando Pessoa em suas incursões pela dismal science (expressão que hoje talvez se aplique melhor à ecologia...) somente ganharam interesse, Gustavo Franco sabe disso, em decorrência da notoriedade do poeta e escritor.

 

            Pessoa foi poeta múltiplo. Autor de obra poética ortônima importantíssima – além de escrita em português, inglês (ele foi educado na África do Sul, onde, aliás, se iniciou nos estudos econômicos), francês. Autor das poesias de seus três mais conhecidos heterônimos: Alberto Caieiro, segundo Pessoa poeta de verso “fortemente pessoal”, “o verso livre dos modernos”, “a emoção enferma ainda um pouco do meio cristão” mas a “idéia, sempre essencialmente pagã”; Ricardo Reis, “um grande poeta (...), se é que há grandes poetas neste mundo fora do silêncio de seus próprios corações”; e Álvaro de Campos, um “extravasar de emoção”, onde “a idéia serve a emoção, não a domina” ou aniquila.

 

            E foi escritor de uma obra monumental, sempre em processo continuado de fazer-se e refazer-se. Ele deixou 30 mil documentos, cerca de um quarto deles ainda por publicar-se. Textos desiguais, muitas vezes soltos, de mais de setenta autores diferentes, todos eles criaturas suas. O Livro do Desassossego – publicado em 1982, “composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade Lisboa”, a “autobiografia sem fatos” em que Pessoa trabalhou desde pelo menos 1913 – nunca teve enredo ou plano, tornando-se cada vez mais incerto, menos possível, mais inconcluso. É obra intemporal. Vive no eterno-atual dos grandes imaginativos (Adolfo Casais Monteiro). Revela sensibilidade subentendida, fugidia. Alheia-se do “contato carnal das almas”. Oculta as interjeições do corpo. Nela o gênio de Fernando Pessoa se expande, atingindo o ápice.

 

 

 

Roberto Cavalcanti de Albuquerque é diretor do Instituto Nacional de Altos Estudos, Inae-Fórum Nacional.