Fernando
Pessoa, economista
ROBERTO
CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE
O recente livro
A Economias em Pessoa: verbetes
contemporâneos (organização, prefácio e notas de Gustavo H.B. Franco,
ex-presidente do Banco Central, Reler, Rio de Janeiro, 2006) atualiza com
competência e sensibilidade a leitura dos penetrantes e originais artigos de
Fernando Pessoa sobre economia, quase todos publicados em 1926.
Ao enfeixar os textos de interesse econômico de Pessoa em
títulos que adotam a terminologia econômica de hoje – além de produzir sobre
eles sugestivos “verbetes contemporâneos” -,
As premonições de Fernando Pessoa em suas incursões pela dismal science (expressão que hoje
talvez se aplique melhor à ecologia...) somente ganharam interesse,
Pessoa foi poeta múltiplo. Autor de obra poética ortônima
importantíssima – além de escrita em português, inglês (ele foi educado na
África do Sul, onde, aliás, se iniciou nos estudos econômicos), francês. Autor
das poesias de seus três mais conhecidos heterônimos: Alberto Caieiro, segundo
Pessoa poeta de verso “fortemente pessoal”, “o verso livre dos modernos”, “a emoção
enferma ainda um pouco do meio cristão” mas a “idéia, sempre essencialmente
pagã”; Ricardo Reis, “um grande poeta (...), se é que há grandes poetas neste
mundo fora do silêncio de seus próprios corações”; e Álvaro de Campos, um
“extravasar de emoção”, onde “a idéia serve a emoção, não a domina” ou
aniquila.
E foi escritor de uma obra monumental, sempre em processo
continuado de fazer-se e refazer-se. Ele deixou 30 mil documentos, cerca de um
quarto deles ainda por publicar-se. Textos desiguais, muitas vezes soltos, de
mais de setenta autores diferentes, todos eles criaturas suas. O Livro do Desassossego – publicado em
1982, “composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade
Lisboa”, a “autobiografia sem fatos” em que Pessoa trabalhou desde pelo menos
1913 – nunca teve enredo ou plano, tornando-se cada vez mais incerto, menos
possível, mais inconcluso. É obra intemporal. Vive no eterno-atual dos grandes
imaginativos (Adolfo Casais Monteiro). Revela sensibilidade subentendida,
fugidia. Alheia-se do “contato carnal das almas”. Oculta as interjeições do
corpo. Nela o gênio de Fernando Pessoa se expande, atingindo o ápice.
Roberto Cavalcanti de Albuquerque é diretor do Instituto Nacional de Altos
Estudos, Inae-Fórum Nacional.