Roberto DaMatta
O GLOBO, 28 de Maio de 2008.
http://www.institutomillenium.org/index3.php?on=artigo&in=assunto&artigo_id=1003
Por iniciativa da vereadora
Não obstante ter sido uma festa tucana, marcada pela referência ao
ex-presidente
Pois a oposição, como o time adversário numa partida de futebol, também faz parte
do jogo, que não poderia acontecer sem o seu concurso. A vitória de uma
iniciativa que começa no plano político, mas se desdobra por toda a sociedade,
tem muito mais valor justamente pela resistência dos que então estavam do
"outro lado". No plano simbólico, o Plano Real é equivalente à
eleição de Lula. Se uma oposição dizia que Lula presidente iria promover a desconstrução do Brasil, o que se viu foi uma competente
continuidade, justamente na área da estabilidade monetária, uma dimensão tida
como secundária pela parcela mais estatizante dos nossos economistas clássicos.
É preciso, nestes quase inacreditáveis quinze anos de estabilidade monetária e
de compromissos com políticas que tornaram o mercado mais eficiente e mais
justo, que se dê, em primeiríssimo lugar, crédito às previsões negativas dos
adversários.
No plano cultural, isso mostra que o jogo político deixou de ser uma briga de
galo. Se no passado pré-real o opositor era o inimigo a ser esmagado a qualquer
preço e artimanha, hoje há uma consciência de que o campo político se parece
cada vez mais a um campo de futebol. Graças a essa convergência de políticas
financeiras que resultaram num insuspeitado sucesso econômico, começamos a ver
o opositor como adversário a ser não só respeitado mas, acima de tudo,
preservado, porque não há democracia sem um outro lado.
A má vontade com o Plano Real, chamado - como foi lembrado com contenção tucana
pelos homenageados - de tudo, menos de mecanismo capaz de liquidar o dragão
inflacionário e permitir o ingresso da sociedade brasileira no clube dos países
onde os cidadãos podiam igualar-se perante a sua moeda nacional, foi importante
para o plano, deu-lhe mais valor. E mais que isso, o fato de, ao longo do
tempo, a economia do real perder o estatuto de "herança maldita" e
passar a pertencer também ao governo Lula promoveu, pela primeira vez na
história deste país, um efeito de convergência de extremos, criando um poderoso
denominador comum que é uma dimensão crítica da vida com mais igualdade e sem a
perda da liberdade. Um sistema no qual todos -
governantes e governados - obedecem e respeitam a lei e não um partido, ditador
ou líder messiânico.
Quero crer que hoje ouvimos pela primeira vez no campo político nacional os
sussurros de um denso reconhecimento. Afinal, reconhecem os de um lado, eles
não estavam tão errados; ao fim e ao cabo, dizem os do outro, eles - apesar de
tudo e precisamente por serem adversários - merecem crédito!
Por ser um fato social total, a moeda tem um lado econômico, mas também possui
dimensões históricas, religiosas, culturais, jurídicas, políticas e
psicológicas. O sucesso do real trás para o campo mais primitivo da disputa
partidária algo a ser preservado. Assim, de modo diverso do que acontecia nos
Brasis antigos, quando um governo destruía impiedosamente o trabalho do outro,
hoje não há quem queira liquidar a moeda. E, com ela, as referências de
previsão, de bem-estar social e de medida de sucesso que a sua estabilidade
exprime. Será que, para além das balizas financeiras, o real trouxe os limites
para a oposição política? A revisão das divergências tidas como
irreconciliáveis que ainda entravam a vida nacional no
momento em que desfrutamos de um enorme sucesso econômico? "Se
acabamos com a inflação por meio de negociação política, por que não podemos
liquidar a criminalidade, a corrupção e a ignorância?
A tudo o que foi brilhantemente acentuado na solenidade, eu acrescentaria que,
no plano cultural, a maior contribuição do real foi impor limites concretos à
elite política. Antigamente essa elite era medida apenas por sua sagacidade
clientelística. O povo, sem moeda estável, não tinha como aferir a sua
competência administrativa. O real, porém, começa a coagir o
"político" a ser um administrador público. A transformar-se num
gerente responsável por esses reais que podem sobrar para serem aplicados em
projetos básicos, ou serem populisticamente
dissipados. A igualdade perante a moeda dá alento à ampliação da igualdade
perante a lei; e vai assim - queira Deus! - sepultando as várias moedas que
circulavam na sociedade, as quais permitiam que certos grupos e pessoas
tivessem mais valor que outras.