Jornal do Brasil, coluna JB Idéias, (19/01/08) sobre o Livro
de
O capital oblíquo, pelo olhar de Machado de Assis
Rodrigo de Almeida, 19/01
"E por que não trataremos um pouco de finanças?",
questiona o narrador na série de crônicas Balas de estalo num longínquo
setembro de 1883, reproduzido nas primeiras páginas da coletânea A economia em
Machado de Assis, que o economista
Eis o narrador machadiano aventurando-se por um tema árido
por natureza, embora exiba, como de costume, texto saboroso, irônico, por vezes
mordaz, às vezes audacioso, outras pueril, mas sempre revelador dos
acontecimentos, principais e secundários, de uma época tumultuada. Hoje parece
evidente que um cronista arguto, como Machado fora nas últimas décadas do
século 19 e início do século 20, dedicaria letras e letras às transformações
econômicas daquele tempo. Não precisaria ser um literato-economista para tanto.
Sentia na observação do cotidiano político (seus "motivos públicos")
ou no bolso (as razões "particularíssimas"). O difícil é identificar
essas nuances de observação, dar-lhes forma e sentido a partir de um emaranhado
de crônicas. Foi o que
O ex-presidente do Banco Central selecionou 39 crônicas,
duas delas em forma de versos, que vão de
O Encilhamento
O então ministro da Fazenda Rui Barbosa, na tentativa de
estimular a industrialização, adotara uma política emissionista
baseada em créditos livres aos investimentos industriais garantidos por tais
emissões. A especulação financeira desencadeada pareceu inevitável. O Rio de
Janeiro, em particular, padecia com a euforia especulativa. Era o chamado
Encilhamento. Machado, diga-se, retrataria sarcasticamente aquele momento em
Esaú e Jacó, romance de 1904. Em crônica, olharia o Encilhamento como uma
multidão que se aglomera em frente à Bolsa de Valores do Rio.
Por precaução, estilo ou bobice, o cronista Machado
defende-se a toda hora. Não se cansa de ressalvar a própria ignorância nos
assuntos de finanças. "Não sei finanças", insiste. Autodefesa de
cronista para fugir de eventuais perguntas, das mais simples às realmente
difíceis. (O que o difere do
Várias crônicas repetem a máxima de que o acionista, este indolente,
"importa-se mais com os dividendos, que com os divisores"
(administradores). Há um desinteresse crônico do acionista pelas assembléias.
Quando a elas comparece, isso se dá à força, arrastado pelos empregados, para
permitir atingir o quorum regulamentar. Como lembra Franco, esse acionista não
é o investidor dos dias de hoje, mas o súdito do imperador, que entende que o
governo é que manda na política econômica, que o Estado é que lhe paga o
dividendo. Portanto, não haveria sentido participar daquelas reuniões para
tratar de assuntos que, no fim, serão definidos pelo governo. Com o joguete
literário, Machado desnuda a influência do Estado sobre todos os negócios
existentes no país.
Outra lógica de
investimentos
O acionista de Machado, notado por Franco a partir de
sugestão do jurista e historiador Raymundo Faoro, está mais próximo do rentista de hoje - o proprietário rico, ocioso, que vive de
rendas. Estes acionistas, lembra Faoro, agrupavam-se
entre os rentiers, que viviam de rendas, rendas de
escravos, de terras, de casas, de créditos, de valores. Há de se notar também
que o investimento em ações naquele tempo obedecia a uma outra lógica. Graças à
oferta de crédito, tendo o governo como fiador, garantiam-se
dividendos sobre lucros fictícios. Era um investimento sem risco. Com essa
observação,
Machado não oferece maiores indícios de que era um crítico
das inovações do mercado financeiro. Ou um liberal disposto a atacar um
capitalismo pela metade. Diferente disso, fala de finanças mas se aborrece ao
tratar de deficit público. Dispõe-se, no entanto, a
falar de problemas complexos - dos impostos regionais inconstitucionais ao
troco e emissões clandestinas dos municípios, dos impostos sobre charutos aos
remédios importados, da flutuação cambial à balança de comércio. Sempre ambíguo
e hesitante, posto que é um leigo no assunto. Mas por que não tratar um pouco
de finanças?