FSP- 04 de junho de 2008
Salvando o cofrinho do Mantega
Paulo Rabello de Castro
O FUNDO Soberano do Brasil apresentado pelo ministro Guido Mantega e por ele patrocinado de modo solitário no governo
não tem recebido apoio de quase ninguém, entre seus pares, e segue atacado pela
academia, do centro à direita e à esquerda.
De fato, o fundo soa como uma idéia algo despropositada num
país que ainda cobra juros altos de si mesmo, por sua elevada dívida pública
pós-fixada, e que ainda não apresenta equilíbrio fiscal corrente.
Será que há jeito de salvar a idéia generosa do ministro, de
fazer uma "poupança de cofrinho"? Um fundo soberano sempre tem por
propósito resgatar o país que o organiza de alguma deficiência estrutural (como
a água e a educação nos países árabes ou a ciência avançada em Cingapura) ou,
ainda, de transferir renda, de modo inteligente, do presente para o futuro -o
motivo previdenciário-, como fazem os noruegueses.
Nos países que formaram um fundo soberano de modo sério,
alguns conceitos essenciais são sempre respeitados: 1) o fundo tem como destino
final dos recursos o povo mesmo, a comunidade como um todo, e não algum
segmento especialmente privilegiado pelo governo (indústria, agricultura,
exportadores, pessoas pobres ou seja lá quem for), quer dizer, a nação é a
proprietária-cotista do fundo; 2) o fundo não brinca com os recursos, nem faz
favor de emprestar a ninguém a juros subsidiados, nem perde dinheiro fazendo
gracinhas no mercado, porque é ao proprietário-povo que o fundo deve satisfação
ao final das suas aplicações; 3) na contabilidade social de longo prazo, a
matemática do fundo se resume a acumular recursos hoje e aplicá-los muito bem,
a fim de remediar uma deficiência séria, ou um passivo social, do país
poupador.
Bingo! Essa é a saída para o fundo do ministro. A única
justificativa plausível, o cala-boca aos seus críticos
contumazes, é determinar o uso final do fundo soberano para cobrir os grandes
passivos sociais do Brasil.
Há vários: o educacional, o ambiental, o imobiliário. Há
outro passivo social, o previdenciário, que se avoluma a cada dia, sem nenhuma
cobertura e para o qual a norma vigente -artigo 68 da Lei de Responsabilidade
Fiscal- já comandou, há sete anos, e sem cumprimento até hoje, que o governo
encontrasse fonte adequada de cobertura financeira -ou seja, o INSS precisa ter
lastro em recursos, hoje inexistentes. Esse buraco previdenciário custa ao
país, por ano, uma vez e meia o valor da rolagem da dívida pública mobiliária.
E seguirá aumentando. Alguns estudos estimam o passivo
previdenciário em cerca de R$ 3 trilhões. Ao criar um fundo soberano tendo como
destino os futuros beneficiários da previdência oficial, o governo passará a
transformar o atual saco sem fundo do INSS num verdadeiro acumulador de riqueza
futura. O fundo abaterá parte da dívida previdenciária das próximas décadas,
resgatando o país de uma injustiça flagrante, de haver criado fundos fechados
de pensão para certas categorias de empregados do governo (bancários,
petroleiros, eletricitários etc.) hoje com perto de R$ 1 trilhão em recursos
amealhados, para apenas 3 milhões de pessoas, enquanto os outros 185 milhões
não têm nenhuma garantia previdenciária em investimentos constituídos para tal.
Por meio do fundo soberano, a previdência do povão será
detentora de cotas de um fundo com lastro num patrimônio acumulado em petróleo,
energia, aço, biotecnologia, semicondutores, bancos e universidades. Nesse
momento, estará plenamente justificada a idéia do cofrinho de Mantega.