Triunfo da ortodoxia
Carlos Alberto Sardenberg
OESP, 02.06.08
Com a nota da Fitch, o Brasil tem
agora grau de investimento por duas das três principais agências de
classificação de risco. A terceira é só questão de tempo. E, com isso, o País
completa uma etapa: a conquista da estabilidade macroeconômica.
É o triunfo da ortodoxia econômica e da manutenção de uma
mesma política por 15 anos, desde a introdução da unidade real de valor (URV),
em 1993. Uma política que, claro, teve alterações, algumas dramáticas, mas
manteve o norte. Para recordar: no início de 1999, logo depois de assumir a
presidência do Banco Central (BC), em meio a uma aguda crise cambial,
perguntou-se a Armínio Fraga qual seria o objetivo de
sua política. E ele: obter o grau de investimento, hoje comemorado pelo
presidente Lula, que toma como sua uma idéia que recusava até antes da campanha
de 2002.
A classificação não depende de um ponto exclusivo, mas do
conjunto da obra. Avalia-se isso em três quesitos: inflação baixa e controlada,
no caso com regime de metas e BC independente; contas públicas ordenadas, com
endividamento em queda; e contas externas não vulneráveis a choques nos
mercados internacionais, com câmbio flutuante.
O quarto quesito é político: um consenso nacional ou ao
menos uma ampla maioria em torno dessas políticas macroeconômicas. Este último
se conquistou com a perseverança com que o governo Lula manteve, e até avançou
em alguns pontos, a política herdada do real.
As duas agências que elevaram a classificação brasileira
(Standard & Poor’s, em abril, e a Fitch, na semana
passada) se referiram ao pragmatismo da política econômica brasileira, em
oposição ao que seria uma atitude ideológica. O pragmatismo quer dizer o
seguinte: não importa o partido, se de direita ou de esquerda, a economia deve
funcionar segundo regras universais, essas que o Brasil passou a respeitar.
As agências destacam ainda como um ponto essencial a liberdade e a independência conferida ao BC para operar o
regime de metas de inflação. (A liberdade do BC de elevar os juros sempre que
considerar necessário para bloquear a alta de preços.) Trata-se de regime
aplicado em quase todo o mundo.
O Brasil tornou-se um país normal no respeito aos
fundamentos da economia capitalista moderna.
Reparem o atual debate em torno da "crise
inflacionária" - estamos discutindo se a inflação será de 5% ou 5,5% neste
ano. É um debate de país estável.
Temos um problema nas contas externas, que estão voltando ao
déficit. Mas é muito menor o risco de um déficit de US$ 30 bilhões neste ano,
quando se consideram as exportações de US$ 180 bilhões/ano, investimentos
externos diretos de US$ 35 bilhões e reservas de quase US$ 200 bilhões.
Financiável, não é mesmo?
Não que não sejam problemas, mas são dificuldades normais de
um país estável, muito diferente daquelas crises agudas em que o dólar
disparava e levava dívida e inflação para as alturas no curtíssimo prazo. Hoje,
aliás, se o real se desvalorizar e o dólar disparar, o governo brasileiro ganha
dinheiro. A dívida pública externa é inferior a US$ 70 bilhões, ante reservas de US$ 200 bilhões. O governo é credor em
dólares. É outro nível, o de grau de investimento e, de novo, o triunfo da
ortodoxia.
O que falta? Mais ortodoxia.
O principal objetivo agora é elevar a capacidade de
crescimento, o que pode e deve ser feito com duas linhas de política: diminuir
o peso do Estado e abrir espaço para um surto de investimento privado.
O maior problema é um setor público que arrecada
impostos demais, gasta muito e gasta mal. É o que dizem as agências,
quando reiteram a necessidade de mais ajuste fiscal.
No Brasil, a dívida bruta do setor público é de 67% do PIB -
e não deveria passar dos 40%, nível máximo dos países emergentes mais avançados
no grau de investimento.
O gasto público com Previdência alcança no Brasil os 13% do
PIB, sendo de 6%, no máximo, nos países emergentes que crescem mais. E, por
tudo isso, a carga tributária brasileira, de 37% do PIB, é um absurdo de alta
para países de renda média. Deveria ser de, no máximo, 25%.
Vai daí que os investimentos são baixos (16% do PIB por
conta do setor privado, mais 1,5% do setor público). Na América Latina, onde os
países investem pouco, a média é de 22%. Os países asiáticos poupam e investem
na casa dos 30% do PIB e a China, sempre a China, mais de 40%.
Vai daí que os juros reais são mais do que o dobro do que
nos países emergentes que mais crescem.
Ou seja, depois desses anos todos de reformas e
implementação de uma sólida política econômica, sobrou esse subproduto: um
setor público que não cabe no País, que é pouco eficiente e gera distorções.
Por falar em ajuste fiscal, o Fundo Soberano definido na
última sexta-feira pelo ministro Mantega não tem nada
a mais que ver com a primeira versão anunciada pelo mesmo ministro e que havia
sido bombardeada fora e dentro do governo.
Foi avanço. O Fundo não vai mais comprar dólares. Outro
avanço: o governo vai aumentar o superávit primário, de 3,8% do PIB, meta
formal, para 4,3%, e esse 0,5 ponto a mais (R$ 13
bilhões) vai para o Fundo.
É bom. Significa que o governo não vai gastar o excesso de
arrecadação. Portanto, é um ajuste fiscal, um não-gasto.
Agora, o correto seria simplesmente utilizar esse adicional
para pagar juros e matar dívida, que é o que se faz com o superávit primário
"oficial".
Mas, não. Para salvar a cara do ministro, defensor do Fundo,
o 0,5% adicional precisa ir para o Fundo, que o investirá. No quê?
Se for em títulos da dívida pública, fica no zero a zero. O
Tesouro emite títulos e o Fundo, que pertence ao Tesouro, compra os títulos. É
meio confuso - para que simplificar, não é mesmo? -, mas, enfim, não aumenta a
dívida.
Agora, se os gestores do Fundo saírem pelo mercado buscando
aplicações mais rentáveis, sei não...
*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista. Site: www.sardenberg.com.br