OESP, Segunda-feira, 16 outubro de 2006
ECONOMIA & NEGÓCIOS
Pelo lado das mentiras
Carlos
Alberto Sardenberg
Pessoas
comuns têm o direito de questionar: analistas e jornalistas econômicos passaram
anos falando do superávit primário nas contas públicas brasileiras e, de
repente, estoura uma discussão sobre a conveniência ou não de se tentar zerar o
déficit público nominal. Portanto, temos superávit ou déficit? As duas coisas -
eis a confusão.
Existe um
superávit - hoje equivalente a 4,25% do produto interno bruto (PIB), ou, em
números redondos, cerca de R$ 85 bilhões - para todo o setor público (governos
federal, estaduais e municipais). De tanto que se fala nisso, passa a impressão
para os leigos de que está sobrando dinheiro. Mas é justamente o contrário:
falta dinheiro.
Funciona
assim: o superávit é primário, conceito que exclui o pagamento de juros. Assim,
o governo recolhe impostos, taxas e contribuições,
mais os dividendos pagos pelas estatais, e começa a gastar com as despesas
primárias. São, basicamente, salários, pensões e aposentadorias, Bolsa-Família
e programas assemelhados de transferência de renda para pessoas; tudo o que se
refere ao funcionamento da máquina, o custeio, o que inclui desde remédio no
hospital até a gasolina do Aerolula; e investimentos.
Somadas
todas as receitas e subtraídas essas despesas, sobra o superávit primário,
neste ano, de R$ 85 bilhões. Mas isso não é sobra. Todo esse dinheiro vai para
o pagamento de juros da dívida. Em números redondos, a conta de juros neste ano
deve ser de R$ 145 bilhões. Ou seja, utilizado todo o superávit primário, ainda
resta uma conta de juros de R$ 60 bilhões. Esse é o tal déficit nominal, cerca
de 3% do PIB.
Como o
governo paga isso? Tomando mais dinheiro emprestado, de modo que a dívida
pública aumenta todo ano. Mas, se o PIB também cresce, a dívida como proporção
do PIB pode cair.
Por
exemplo: PIB de 100, dívida de 40, dívida de 40% do PIB; aí o PIB vai a 105 e a
dívida a 41, e temos dívida de 39%.
Há um amplo
entendimento segundo o qual o conceito mais importante é esse de dívida/PIB. Por
isso não seria necessário pagar toda a conta de juros, apenas o necessário para
ir diminuindo aquela relação.
Pois o
grande bate-boca eleitoral da semana passada começou com a sugestão do
economista Yoshiaki Nakano,
colaborador e ex-secretário da Fazenda de Alckmin. Ele propôs que se definisse
a meta de zerar todo o déficit nominal, isto é, fazer a economia necessária
para pagar toda a conta de juros até o último centavo. Seria um ajuste fiscal
completo, que reduziria a zero o risco Brasil, reduziria a zero a necessidade
de o governo tomar novos empréstimos e, com isso, a taxa de juros iria ao chão.
Para fazer
isso no próximo ano seria preciso uma economia (um superávit primário) de R$
145 bilhões, ou 7,25% do PIB. Ou seja, ainda considerando números parecidos com
os deste ano, seria necessário fazer um corte adicional de gastos de R$ 60
bilhões.
Estão
vendo? - pegou a deixa o ministro da Fazenda, Guido Mantega,
e decretou: eles (os tucanos) vão cortar os gastos sociais, salários e
aposentadorias.
De fato, se
fosse para zerar o déficit neste ano, ou no próximo, o ministro estaria certo. Tamanho
corte de gastos, de uma só vez, é impossível sem causar uma sangria.
Mas é óbvio
que a proposta de Nakano é para o prazo longo, como
observou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.
Aliás, a
proposta de Nakano é idêntica à que foi formulada há
poucos meses pelo deputado Delfim Netto (com apoio de
outros economistas), quando a idéia recebeu a simpatia do então ministro
Antonio Palocci e do ainda ministro Paulo Bernardo. Foi
também essa proposta que a ministra Dilma Roussef qualificou como rudimentar, antes de detoná-la
dentro do governo.
É
interessante notar que, no mesmo dia em todo o PT malhava Nakano,
o presidente Lula e a cúpula do partido recebiam alegremente a adesão de Delfim
Netto, para quem um eventual governo Alckmin seria um
retrocesso.
E aí, como
ficamos?
Ficamos
assim: com campanha ou sem campanha, o setor gasta muito e continua aumentando
seus gastos, financiando-os com aumentos anuais de impostos, principalmente, e
com aumento de dívida, secundariamente. Como a carga tributária já é asfixiante
e a dívida é elevada, sob qualquer critério, não há outro caminho senão iniciar
um processo de redução de gastos.
Isso tem de
ser feito com uma combinação de políticas, desde maior eficiência no gasto,
melhor gerência, reforma administrativa do setor público e, sim, inescapável,
outra reforma da Previdência, com, necessariamente, elevação da idade mínima
para a aposentadoria.
A proposta Nakano-Delfim, essa de zerar o déficit nominal das contas
públicas, pode ser definida como radical, uma idéia xiita fiscal. Em circunstâncias
normais, déficits inferiores a 3% do PIB são aceitáveis. Mas a situação das
contas públicas brasileiras não é normal há muito tempo. Estamos quase
completando 20 anos de aumentos seguidos de gastos e impostos.
A idéia de
déficit zero - definida num programa de governo de médio prazo, fixado em lei
aprovada pelo Congresso Nacional - passaria a seguinte mensagem: Basta! As
contas serão definitivamente equilibradas.
Para fazer
isso sem reduzir o volume de investimentos necessários à manutenção do
crescimento econômico será necessário abrir espaço e condições para o
investimento privado, já que o setor público deve encolher em relação ao
tamanho da economia.
Ou seja,
será necessário, sim, privatizar empresas e, sobretudo, serviços: conceder
estradas, portos, ferrovias e aeroportos a empresas privadas.
Tanto é
verdade que Lula tratou de pôr de pé o sistema das Parcerias Público Privadas (PPPs) - que é uma espécie de
privatização disfarçada ou envergonhada. Enquanto isso, na campanha, acusa
Alckmin de ser o “grande privatizador”.
Eis aí,
gastos públicos e privatização entraram na campanha, mas pelo lado das mentiras
eleitorais.
*Carlos
Alberto Sardenberg é jornalista. Home page:
www.sardenberg.com.br