Folha de São Paulo,
domingo, 11 de fevereiro de 2007
JOSÉ ALEXANDRE SCHEINKMAN
A ortodoxia dos heterodoxos
O conhecimento econômico avançou combinando desenvolvimento
teórico com sofisticação na análise de dados
HÁ NO Brasil uma divisão convencional entre economistas
ortodoxos e heterodoxos. Uma das principais referências heterodoxas é John Maynard Keynes. Em 1936, quando a sua "Teoria
Geral" foi publicada, a economia clássica era incapaz de explicar ou criar
políticas para resolver a Grande Depressão. Apenas dez anos depois, o futuro
Prêmio Nobel Paul Samuelson já observava a grande
aceitação das idéias keynesianas nas melhores
universidades americanas e britânicas.
Mas a pesquisa em economia não parou em 1936. Na década de
50, Milton Friedman argumentou que a hipótese de
Keynes de que o consumo é uma função da renda corrente e que além disso cresce
menos do que proporcionalmente com a renda não era válida. Friedman
partiu de observações empíricas, mas também de um raciocínio puramente teórico
baseado no modelo de um Homo economicus racional.
Segundo esse modelo, cada família faz suas decisões sobre
consumo baseadas na sua renda esperada no longo prazo -a renda permanente, no
jargão de Friedman-, em vez da sua renda corrente. Um
trabalhador desempregado que sabe que em breve terá boas ofertas de emprego
consome mais do que um com piores perspectivas.
Os dados econômicos trazem informação apenas sobre a renda
anual -uma medida muito imperfeita da renda permanente. Para superar essa
dificuldade, Friedman desenvolveu uma análise
estatística sofisticada -os detalhes eu vou poupar ao leitor-, que mostrou que,
na realidade, como a teoria predizia, o consumo de cada família é
aproximadamente proporcional à sua renda permanente. Uma das implicações desse
resultado é que algumas das políticas keynesianas de
curto prazo, como o corte temporário de imposto sobre a renda, causam pouco estímulo ao consumo, porque têm efeito limitado
na renda permanente dos consumidores. O trabalho de Friedman
não foi a última palavra sobre o comportamento do
consumo, mas, com um artigo de Modigliani e Brumberg no mesmo espírito, foi a base para as pesquisas
sobre esse tópico feitas nos últimos 50 anos.
O livro de Friedman é um excelente
exemplo de como inovações na teoria, aliadas a uma análise empírica rigorosa,
trazem nova luz a problemas de política econômica, mas não é um caso singular.
O conhecimento econômico avançou muito nas últimas décadas combinando
desenvolvimentos teóricos com uma crescente sofisticação na análise de dados.
Um exemplo entre os primeiros é a teoria dos jogos, que
trouxe uma perspectiva original para situações de interação estratégica. Por
sua vez, a análise empírica beneficiou-se do progresso na econometria,
o estudo de métodos estatísticos para a interpretação da evidência econômica, e
da construção de novas bases de dados.
Como em todo campo em que há atividade de pesquisa, uma
parte do que é produzido em economia tem pouco valor e é rapidamente esquecida,
mas há grande contraste entre a literatura "convencional" e a
literatura acadêmica heterodoxa no Brasil, em que se encontra com muito maior
freqüência referências a Keynes ou Ricardo (morto em 1823) do que a artigos
recentes em econometria ou teoria econômica.
Tudo isso seria de pouca importância se fosse uma mera
discussão acadêmica, mas essas divisões têm outras conseqüências. No começo da
década de 70,
Houve elementos ideológicos nesse episódio, mas a acolhida
negativa também foi resultado da falta de conhecimento entre boa parte dos
economistas brasileiros da teoria do capital humano e da incapacidade destes
para julgarem a qualidade dos métodos empíricos que Langoni
utilizou. Não é óbvio que o governo da ditadura, interessado em grandes obras e
subsídios a empresários amigos, teria escutado a academia, mas perdemos uma chance
de investir mais cedo em educação.
Leio no dicionário Houaiss da
língua portuguesa que um uso informal da palavra "ortodoxo" é
"que não tolera o novo e o diferente". Exatamente o que parece
descrever uma parcela dos heterodoxos.
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JOSÉ ALEXANDRE SCHEINKMAN, 58, professor de economia na Universidade Princeton (EUA), escreve quinzenalmente aos domingos nesta coluna.