3 de agosto de 1989
O artigo de
Aloisio Teixeira recentemente publicado (JB, 22/7/89) traz uma série de teses
polêmicas acerca das políticas fiscal e de financiamento do setor público lia
atual crise econômica brasileira. Seu argumento principal é o de que as
dificuldades ora enfrentadas pelo setor público não são de natureza fiscal, mas
financeira. O autor enfatiza que o problema verdadeiro não é o déficit mas a
dívida, ou mais precisamente a dívida interna que deveria ser “equacionada”
pois se presta unicamente a proporcionar “mecanismos especulativos de
valorização patrimonial de meia dúzia de potentados econômicos” (sic). O
argumento é, portanto, o de que a cruzada contra o déficit público -hoje uma
(quase) unanimidade nacional - é fundamentalmente equivocada. pois o estado “já
cumpriu a sua parte” (sic) e está com sua “finanças depauperadas”. Por fim,
aparentemente irritado com o diagnóstico da crise fiscal brasileira contido no parecer do deputado
José Serra (PSDB) ao projeto da lei de Diretrizes Orçamentárias(LDO). Teixeira
apresenta a estapafúrdia idéia de que, ao definir-se pelo combate, ao déficit
público, a Social Democracia Brasileira alia-se com “a elite predatória e
autofágica” (sic), o que, segundo o autor. Sugere que a vocação da
socialdemocracia é o passado e que dela “nada se pode esperar”. O artigo, em
resumo, contém diversos equívocos e mistificações que levam a uma sugestão
inteiramente irresponsável o “equacionamento” da dívida interna – e a um ataque
infundado e de motivação nitidamente partidária à Social Democracia Brasileira.
Vamos examinar esses equívocos em detalhe.
Em primeiro lugar, existe algo de alarmante na sugestão
de que o problema do setor público não é fiscal, pois leva a que se pense que
as coisas estão essencialmente corretas nesse terreno. Discordar desse
diagnóstico obviamente não significa assumir posturas liberais, ou aliar-se ao
“pensamento conservador”, basicamente porque existe muito mais coisa entre o
liberalismo e a fisiologia rasgada que hoje se pratica do que imagina o Sr.
Teixeira.
Em quinto lugar, a assombrosa idéia de que o governo “já
cumpriu a sua parte”, pois não tem
recursos para cumprir seus compromissos reproduz exatamente os argumentos do
próprio presidente Sarney a esse respeito em entrevista recente. O fato de o
governo Sarney se abster de eleger itens específicos de despesa para serem
cortados força os ministros da área econômica a obter um mínimo de equilíbrio
nas contas públicas através de expedientes de controle do caixa - atrasos de
pagamentos e de liberações de verbas. Com esta política de “só gastar o que se
arrecada” o governo ganha no “ovcr” com os atrasos de pagamentos, fazendo
assim incidir uniformemente sobre o conjunto de suas rubricas de despesa o
sacrifício que deveria ser imposto aos beneficiários de gastos improdutivos.
Hospitais, universidades e a merenda escolar, por exemplo, que não deveriam
estar sujeitos a cortes por qualquer critério minimamente racional de alocação
de dispêndio público, são sacrificados, para que se mantenha andando, por
exemplo, as obras da Norte - Sul. As finanças públicas estão caóticas
justamente por que o governo do presidente Sarney não fez nenhuma espécie de ajuste fiscal digno deste nome.
Em sexto e último lugar, tendo em vista que a social
democracia brasileira não se alinha com as teses exóticas do Sr. Teixeira é
natural que estejamos em lados opostos e é compreensível sua ira contra uma das
poucas peças responsáveis de legislação fiscal dos últimos anos, a Lei de
Diretrizes Orçamentárias. Temos também uma divergência séria sobre onde efetivamente
se situa o passado. Ao explicar algumas dessas diferenças, este artigo procura
esclarecer o leitor sobre o que não deve da social democracia.