Folha de são Paulo
5 de janeiro de 1997
O
cosmopolitismo de araque
Novas formas de irracionalidade definem a
era do capitalismo medíocre
JOSÉ CARLOS DE SOUZA BRAGA
especial para a Folha
A globalização capitalista nem é mito,
como pretende certo esquerdismo nacionalista atrapalhado, nem é sinfonia do
equilíbrio geral dos mercados liberalizados, como quer o apologeta cosmopolita
da periferia. Ela é a denominação consagrada, ainda que enganosa, por sugerir
homogeneidade mundial, para a atual realidade do sistema de poder
internacional, dominado por Estados Unidos, Japão e Alemanha, cujas
características econômicas tratei séria e serenamente no artigo intitulado
"O espectro que ronda o capitalismo" (Mais!, 01/09/96). Defendi a
idéia de que a globalização é, possivelmente, uma nova forma do desenvolvimento
capitalista e de sua irracionalidade inteligível, que se expressa, sobretudo,
no que denominei, com explicação detalhada, de financeirização da riqueza.
Um dos diretores do Banco Central
brasileiro, Gustavo Franco, atacou este artigo, entre outros, com adjetivação
furiosa "macrocosmologia fantasmagórica", "capitalismo
catástrofe", mas sem argumentos substantivos (Mais!, 24/11/96). Cada banco
central tem os dirigentes que as armadilhas do destino histórico lhe aprontam,
ainda que não o mereçam. Ao contrário do funcionário brasileiro, o presidente
do FED, o banco central dos Estados Unidos, Alan Greenspan, comentou a
globalização financeira com a seriedade que o assunto requer. Referindo-se ao
comportamento especulativo nos mercados acionários mundiais, afirmou que eles
vivem uma "exuberância irracional" (no caderno Dinheiro, Folha,
07/12/96).
Do que se trata é desta autonomização
financeira em que os valores dos títulos superam os da riqueza produtiva, com o
dinheiro exercendo todo o seu fetiche, como objeto animado pela virtude mágica
de acrescentar-se na espiral dos juros, de ser venerado, obedecido às cegas,
verdadeira encarnação do "espírito" do capital. Característica
escamoteada em tantas análises vulgares da globalização e dos riscos que o
processo de inserção deve levar em conta. É compreensível sobretudo quando
provenientes da verve de operadores de tal folia na periferia do capitalismo. O
operador do fetiche não o domina; é por ele dominado. É incômoda, portanto, a
designação de fenômenos como sobrevalorização da taxa de câmbio e valorização
fictícia do capital como coisas próprias do fetiche.
Num esforço de reflexão, Franco arremata:
"Impossível saber o que são essas coisas, mas nada pode soar mais assustador:
fetichismo, financeirização, capital em função, cruz-credo".
Ora, cruz-credo! há de dizer o atento
leitor diante da empulhação. Afinal, em algum momento de meditação, lá com seus
botões, mesmo o operador há de suspeitar que no capitalismo o fetiche está
relacionado ao dinheiro e ao seu modo especial de operar como reserva de valor.
Nos bancos centrais, como demonstra a franqueza de Greenspan, muita coisa se
constata, mesmo quando originariamente não se o fez nos bancos escolares, ou
quando delas, acomodaticiamente, já se esqueceu.
A irracionalidade em questão advém da
multiplicação fictícia da riqueza e suas conseqüências danosas para as
economias e as populações. A especulação provoca recorrentemente valorizações
financeiras descoladas das variáveis reais como o lucro e o investimento
produtivos. Esta camada de riqueza financeira fictícia, como expliquei no
Mais!, passou a ser um elemento estrutural no capitalismo atual. É uma massa de
"riqueza de papel" (títulos financeiros e moedas) com a qual manipulam
diariamente bancos, empresas e grandes proprietários. Daí a sucessão de bolhas
especulativas, crises de desvalorização e emergência de novas bolhas. Se os
bancos centrais e as políticas econômicas fossem capazes de estimular tal
riqueza monetária para fins produtivos, a infra-estrutura, o investimento, o
emprego e as condições de vida no mundo teriam outra perspectiva.
Ao contrário, essa "riqueza de
papel" circula especulativamente na globalização e é sancionada,
especialmente, por governos que mantêm altas taxas de juros. O Banco Central do
Brasil, na gestão de Franco, é exemplar nesta prática com a qual atrai capitais
estrangeiros para sustentar as reservas internacionais e assim garantir a
"âncora" do Real: a taxa de câmbio sobrevalorizada diagnosticada pelo
próprio BNDES.
Os gestores de bancos centrais têm
vivenciado também outro aspecto importante da irracionalidade, que é o da
esterilidade da dívida pública. Esta não é mais em grande parte emitida para
financiar o investimento governamental, mas sim para pagar custos de uma dívida
que cresce com os juros altos. Mais dívida para pagar mais juros, impulsionando
a inconsistência fiscal.
Chegando o momento da desconfiança frente
ao câmbio e ao fisco, vem o desenlace conhecido. Os aplicadores fogem da moeda
artificialmente valorizada, caem as reservas internacionais, ocorre a crise
cambial e o governo local precisará que um banco central emissor de divisa
forte e organismos internacionais venham em socorro.
Na opinião de analistas de distintos
perfis político-ideológicos, o livre movimento de capitais especulativos, os
juros altos, o câmbio sobrevalorizado, e a inconsistência fiscal são a marca de
nossa "estabilização" inserida neste mundo global.
Contra a lengalenga de que só há este
caminho, permita-me o leitor lembrar de algo que registrei quando do lançamento
do Plano Real: "Não se trata de desconhecer que a inserção das economias
periféricas nesta economia global é inevitável, nem tão pouco de imaginar
reincursões no nacional-desenvolvimentismo ou no nacional-populismo. O problema
crucial é a estratégia, o cronograma e as políticas concretas desta inserção e
não o reconhecimento acaciano de que o mundo mudou" (Mais!, 31/07/94).
Se voltaremos ao "capitalismo
catástrofe", como nos anos 30, o que não foi fruto da "imaginação
crítica", mas em boa parte da inoperância das autoridades monetárias, é
coisa que quem viver verá. O futuro, como ensinou lorde Keynes, é
incognoscível. Por enquanto, como disse no artigo que instigou o diretor
Franco, o espectro da globalização é: nem colapso nem desenvolvimento. Nesse
sentido, o que se pode afirmar é que ao "capitalismo idade-de-ouro",
do pós-guerra, sucedeu o "capitalismo medíocre" e seus operadores
globais correspondentes. Medíocre, por suas baixas taxas de crescimento, por
seu desemprego, pela desindustrialização em vários países, pelo aumento da
heterogeneidade econômica e social mundo afora, pela ação restritiva da
financeirização ao capital em sua função produtiva, pela elevação da
"estabilização monetária" a qualquer custo à condição de
"projeto nacional".
A globalização é um fenômeno mais fundo
do próprio desenvolvimento capitalista e enquanto tal ela tem dimensões
irreversíveis, como a interdependência econômico-produtiva e
monetário-financeira das nações. Reversível é a política do "laissez-faire"
que os pacotes políticos retrógrados nela introjetam. As tarefas complexas da
própria globalização acabarão por derrotá-la se não regredirmos ao século 19,
quando se chegou a pretender que a economia mandasse na sociedade. Já é
crescente, mesmo no âmbito do governo brasileiro, a percepção de que, na
globalização, para um país ser vitorioso é preciso ser soberano sem
xenofobismo, mas também sem cosmopolitismo de araque.
José
Carlos de Souza Braga é professor-doutor do Instituto de Economia da Unicamp
(Universidade Estadual de Campinas), pós-doutorado pela Universidade da
Califórnia (Berkeley, EUA), foi secretário-especial de Abastecimento e Preços
do Ministério da Fazenda (1986-1987) e presidente do Conselho Regional de Economia-SP
(1985).