Carta Capital , 23 de junho de 1999
Trevisan neo-liberal
Gustavo H. B. Franco
Fiquei confuso ao ler a tréplica do Doutor Trevisan. Eu não consigo entender uma “polêmica” onde ele repete idéias que são minhas (de outros como eu, há seis anos brigando contra o déficit público) sobre política fiscal, gestão responsável, transparência, e a necessidade de se explicitar as origens dos recursos que o setor público gasta, e no entanto, insiste em fazer parecer que está me ensinando alguma coisa, ou que está discordando de mim. Como se os responsáveis pelo déficit público fossem aqueles que o combatem e não os que o mantém vivo com o argumento que ele não é tão importante ou tão grande quanto dizem.
Não é a mim que o Doutor
Trevisan critica quando desanca a política fiscal ou cita um economista que
teria dito que “dívida não se paga, rola-se”. O autor dessa pérola, segundo
consta, é o ex-ministro Delfim Netto, decano dos economistas ditos heterodoxos,
e “muso” de toda uma geração de economistas que não acredita em equilíbrio,
transparência e responsabilidade fiscal, e que, com efeito, para usar as
palavras do Doutor Trevisan, têm “dificuldade”, ou não tem disposição, “de
entender a verdade contábil”, ou acha que esta verdade deve estar a serviço de
um projeto maior, possivelmente o desenvolvimento. São esses os economistas que
o Doutor Trevisan está a criticar: são os alternativos, os desenvolvimentistas,
os favoritos dos governantes gastadores e irresponsáveis e não os economistas
de formação convencional, como eu e como o Ministro Pedro Malan que, inclusive,
é citado de forma canhestra no artigo do Doutor Trevisan como alguém que não
estaria preocupado com a dívida pública.
O problema, Doutor Trevisan,
é que estamos do mesmo lado, falando as mesmas coisas, apoiando a Lei de
Responsabilidade Fiscal, a reforma da Lei 4320, e tudo que aponta nessa
direção. Está me parecendo, todavia, que o ilustre contabilista está
terrivelmente incomodado em concordar comigo. E o motivo é simples: vão lhe
chamar de monetarista ou de neo-liberal.