Valor Econômico, Quinta-feira, 31 de maio de 2007
Internacionalização de empresas ganha força
Editorial
A internacionalização das empresas brasileiras é mais um dos
capítulos da história ainda em curso de um dos períodos de maior crescimento da
economia mundial e de maior liquidez internacional
A emergência da China e da Índia como grandes jogadores na
arena econômica global, além de acelerar o crescimento mundial, mudou o jogo
dos negócios internacionais. O primeiro e mais evidente impacto, mas nem de
longe o único, foi sentido nas commodities. A rápida
elevação do nível de renda de chineses, indianos e dos habitantes dos países
que foram comunistas na Europa empurrou as companhias que disputam esse mercado
a uma corrida pelo aumento da escala de produção para atender a uma demanda em
expansão quase exponencial. A maneira mais rápida de fazer isso, em mercados
que já tendiam à concentração, é a aquisição de rivais, em fusões cada vez
maiores e mais valiosas. Uma das novidades desse processo foi que as empresas
brasileiras começaram a aparecer entre as compradoras globais.
A aquisição da Inco pela Vale do
Rio Doce, há tempos um competidor mundial de primeira linha, por US$ 18 bilhões
marca a nova era. Um negócio desse porte não seria feito na década passada,
ainda que houvesse vontade ou necessidade de realizá-lo. Para isso foi preciso
que o custo de capital para companhias como a Vale equivalesse a de suas
concorrentes, o que não poderia ocorrer no mercado doméstico. A enorme liquidez
internacional, nutrida ao longo de quatro anos com as mais baixas taxas de
juros em cinqüenta anos, praticamente equalizou o
jogo para quem já tivesse boa reputação de crédito no mercado internacional,
como a Vale. O fato de que tenha conseguido arregimentar oferta de até US$ 30
bilhões para o pacote de financiamento que montou para levar a Inco fala por si só dos novos tempos.
Empresas como a Gerdau, operando em mercado com maior número
de competidores, aproveitaram a internacionalização
para reduzir o custo de capital. A preferência foi por mercados de grande porte,
onde barreiras protecionistas estão sempre à espreita, como os Estados Unidos,
a compra de uma variedade de ativos na América do Sul, região natural de
expansão, e uma incursão na Espanha. A novidade, no caso, foi que um grupo
brasileiro pôde arrematar diversas empresas norte-americanas que estavam mal
das pernas, assumindo dívidas a custos compatíveis, com razoável ou baixo
desembolso de capital.
Essa estratégia gradualista foi
igualmente bem-sucedida para o Friboi, que após o
teste de cruzar as fronteiras e comprar vários frigoríficos na Argentina, deu
uma tacada de mestre e por US$ 400 milhões em dinheiro, mais assunção de
dívidas, tornou-se a maior indústria de carne bovina do mundo, batendo gigantes
como Cargill e Tyson.
Ainda que os juros brasileiros prossigam muito altos, eles
tornaram-se os mais baixos em pelo menos uma década. Caíram
o suficiente, entretanto, para dar um empurrão significativo no mercado de
capitais, que começou a deslanchar no Brasil em 2005, e barateou o custo do
dinheiro para as companhias. Capitalizadas, elas foram em busca de mais
negócios, fora ou no mercado doméstico, o que também elevou o número de fusões
e aquisições no país.
Nesse cenário, o papel da valorização cambial não foi
decisivo na internacionalização. Ele foi grande, sim, para a substituição de
fornecedores nacionais por internacionais, estratégia predileta das
multinacionais, cujas filiais competem entre si