Por Robinson Borges
17/08/2006
O economista
Nelson Perez/Valor 
Franco: "Observa-se rendição às políticas alinhadas com os
consensos internacionais que foram introduzidos pelo Real"
Passados sete anos desde sua saída do governo, Franco acredita que não
há mais espaço para a temperatura dos debates daquela época, que freqüentemente
se transformavam "em acusações pessoais" contra os
"neoliberais" e "burgueses". Para ele, os tempos são outros
e o pensamento único venceu. "Não é a economia que vai ganhar a eleição,
pois, nesse terreno, os candidatos mais relevantes são indistinguíveis",
diz o economista, que lança seu novo livro, "Crônicas da Convergência -
Ensaios sobre Temas já não tão Polêmicos", na segunda-feira no Rio e na
quarta em São Paulo.
O caminho que conduziu os principais políticos do país a um ponto de
vista econômico com mais semelhança do que dissenso é justamente o epicentro do
livro, constituído de 189 artigos publicados na imprensa entre 1999 e 2005. Vários
foram atualizados e reescritos para o formato de livro, para se ter um
resultado final coeso. De fato, a obra ganhou uma curiosa estrutura, que parece
feita de "pequenas fotografias da vida econômica", que constroem uma
composição perfeitamente sintetizada na palavra convergência, não por acaso, no
título da obra. No entanto, o livro pode soar, muitas vezes, como uma
autodefesa pública.
Analisados em perspectiva histórica, os textos revelam dois pontos
fundamentais no período abordado: 1) o fortalecimento da "esquerda" do
PSDB, representada pelo então ministro da Saúde de Fernando Henrique Cardoso,
José Serra; e 2) a primeira metade do governo do primeiro presidente de
esquerda depois de João Goulart (1918-1976).
Do ponto de partida da ascensão da esquerda, o ex-presidente do BC
conclui no seu melhor estilo: "Seria legítimo e lógico que se esperasse
mudança, ou ao menos um recuo das reformas e políticas macroeconômicas
convencionais da primeira administração do presidente Fernando Henrique,
especialmente à luz do que se dizia ser a mensagem das urnas na campanha de
2002. Qual nada! Muito ao contrário, observa-se uma pragmática rendição, às vezes conformada, às vezes mal-humorada, às políticas
econômicas alinhadas com os consensos internacionais que foram introduzidos no
Brasil junto com o Plano Real".
No período de 1999-2006, o modelo do esquerdismo nacionalista
"jurássico", diz Franco, "se não desapareceu como alternativa
viável no domínio das políticas macroeconômicas, ficou reduzido a um punhado de
radicais que deixaram o Partido dos Trabalhadores a bordo de uma melancólica
Kombi cor de sangue".
Toda a argumentação contra os ortodoxos teria se transformado "em
pó", como efeito colateral da inconsistência crítica, da incompetência
executiva e do colapso moral do crítico. Para ele, esse aspecto se acentuou a
partir do escândalo do mensalão, que promoveu o que
Franco chama de "queda do muro". O muro, entretanto, não teria caído
apenas para os petistas. O economista diz que essa parede também existia no
PSDB, e com duplo sentido. "Não apenas como expressão da crença na
existência de uma suposta 'alternativa', mas também como eloqüente símbolo da
indecisão entre os ideais estatistas e os ventos
pró-mercado. A hesitação era predomínio da preguiça, ou da falta de segurança."
Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista com o ex-presidente
do BC, que se mostra, mais do que nunca, um franco-atirador.
Valor: Durante o governo FHC, houve uma cizânia
entre os desenvolvimentistas e os monetaristas. O PT, na época, da oposição,
era absolutamente crítico em relação às políticas monetaristas de FHC. Quase
quatro anos depois de assumir o governo, como vê a posição do governo em
relação a esse debate?
Valor: Nesse debate sempre são quentes as
discussões sobre o tamanho do Estado e a informalidade. Como vê essa situação?
Franco: É um grande debate sobre os exageros da
regulação no mundo tributário e das leis trabalhistas. A informalidade é a
medida da nossa hipocrisia, é a demonstração de que o intuito de proteger o
desprotegido acaba não apenas falhando como superprotegendo
o já protegido.
Valor: Como vê a disputa política diante das
eleições de outubro?
Franco: A melhor notícia é que, qualquer que seja o
desfecho, nada vai mudar na economia. Nunca houve tanta serenidade nos mercados
faltando 45 dias para as eleições. Isso é a convergência: não é a economia que
vai ganhar a eleição, pois, nesse terreno, os candidatos mais relevantes são
indistinguíveis.
Valor: Há oito anos, o Brasil intercala um ano de
economia em alta com um ou dois de atividade retraída. Hoje, muitos dizem que o
país tem condições de crescer por causa do saldo comercial, da inflação e dos
juros em queda, além do aumento do crédito para pessoas físicas e jurídicas.
Franco: É claro que podemos crescer aceleradamente e de
forma consistente, mas era preciso mais uma rodada de reformas. São elas que
vão destravar obstáculos como a taxa de juros e os impostos. São muitos os
temas; no meu livro há muito sobre os diversos campos onde há coisas por fazer.
Valor: O senhor tem sido um grande defensor do
choque de gestão para baixar os juros, reduzir o risco-país e o Brasil se
transformar em "investment grade". Como
efetivamente o próximo governo poderá melhorar as finanças públicas, sem ser
uma mudança cosmética?
Franco: Há muito o que fazer no
sentido da redução de despesa. Muita coisa. É um dos mitos de Brasília que a
despesa é rígida, e que não há o que fazer. Nada disso. Recentemente ouvi do
doutor Jorge Gerdau, falando de empresas e também do governo, que não há custo
que não possa ser reduzido em 30%. É uma espécie de lei de Sauer
para o século XXI. A decisão de cortar requer coragem, e eu acho que está
madura. Em outra época era um assunto polêmico: não é mais. Os empresários
fazem isso nas empresas deles, por que o governo, que é "a nossa
empresa", não pode fazer igual? Quem, exceto os interesses diretamente
atingidos, pode ser contra a responsabilidade fiscal e a melhoria do crédito
público?
Valor: Mesmo assim, bons ventos têm soprado na
direção da economia brasileira: o risco-país está caindo e há uma melhor
distribuição de renda entre as classes mais baixas. O governo de Luiz Inácio
Lula da Silva tem acertado?
Franco: Os bons ventos do exterior compensam uma certa
hesitação no tocante a reformas. O governo Lula manteve políticas de bom senso,
e de consenso, em áreas essenciais, notadamente na política monetária. Mas não
foi além disso, infelizmente.
Valor: O senhor acredita que as medidas do BC para
conter a valorização do real, que tem comprometido a rentabilidade do
exportador desde 2005, são eficientes?
Franco: Não vi nenhuma medida significativa para evitar
a valorização do câmbio. A medida provisória que altera a mecânica de cobertura
cambial, e que trata de capital contaminado, dificilmente terá qualquer efeito
sobre a taxa de câmbio. Na verdade, ao permitir investimentos externos, com incentivo tributários, em títulos da dívida pública, o
governo faz exatamente o contrário. A única coisa que pode evitar que a
valorização cambial continue é o crescimento das importações. O câmbio não vai
parar de cair enquanto o superávit comercial for deste tamanho. Não é possível
ficar com o almoço e com o dinheiro.
Valor: Qual sua opinião sobre a reivindicação de
que é preciso uma política industrial para fazer o Brasil crescer de forma
sustentada?
Franco: Acho que qualquer política pública é legítima, e
deve disputar recursos transparentemente com outras prioridades nacionais num
contexto de recursos escassos. Essa, em particular, me parece uma questão que
vejo quase que restrita aos bancos oficiais, notadamente o
BNDES e a Finep no universo do fomento à tecnologia.
Valor: Quais são suas referências quando escreve
seus livros? Tem uma preocupação estilística?
Franco: São raros os economistas bons de texto. São
muitos os jornalistas e os advogados. Os economistas se acostumaram a escrever
para publicações acadêmicas, em linguagem hermética. É uma pena. Não tenho
muito para onde olhar.
"Crônicas da Convergência - Ensaios sobre Temas já não tão
Polêmicos" - De
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O ex-presidente do Banco Central
Data: 23 de agosto
Horário: das 19h às 22h
Local: rua Mário Ferraz, 414, Itaim, São Paulo
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