VEJA, edição 1937
. 28 de dezembro de 2005
Os enigmas da
economia em 2005
"O BC foi conservador até não poder mais,
porque é uma ilha de racionalidade dentro
de um governo desmantelado. Nada de
buscar a colaboração de outras áreas de
governo, pois só há inimigos à sua volta"
O barulho das CPIs poderia dar ao leitor a
impressão não inteiramente falsa de que na economia não aconteceu muita coisa
em 2005. Mas o ano que passou está repleto de enigmas interessantes, como os
seguintes: como conseguimos ter tanto crescimento com os juros do
tamanho em que estão e com o desmonte do governo provocado pelo mensalão? Como conseguimos tanto superávit comercial com
uma taxa de câmbio pior (para o exportador) que a do pior momento dos tempos da
"âncora cambial"? Como é que tivemos tanta
inflação apesar de o câmbio ter caído como caiu e dos maiores juros do mundo?
E, por fim, e a propósito, por que mesmo somos os campeões mundiais de juros?
A chave para o primeiro enigma é simples: a economia brasileira, mercê
das reformas feitas antes de 2003, é muito mais independente do governo do que
jamais foi. E, onde as coisas dependem de Brasília (por exemplo, na
infra-estrutura), não aconteceu muita coisa; 2005 foi uma monotonia
entrecortada por hesitações. Exceção feita para o crédito consignado, uma
inovação importante, mas que tudo leva a crer que foi apenas uma emenda nas
medidas do microcrédito.
E assim, graças ao fato de o crescimento mundial ter sido brilhante, o
nosso, que será, ao fim das contas, bastante modesto, foi produzido pela
globalização e pelos bancos, e não foi muito atrapalhado por Marcos Valério.
Também o superávit comercial deve um bom pedaço de sua pujança à
globalização. Primeiro, porque os preços das commodities
foram espetaculares, e segundo, e mais importante, pelo fato de que foi
fenomenal, nos últimos anos, o crescimento das exportações "intra-firma",
ou seja, aquelas em que uma filial brasileira de multinacional exporta para sua
matriz e outras filiais num contexto de otimização das atividades globais do
grupo. As multinacionais respondem hoje por 60% ou mais das exportações
brasileiras, e cerca de dois terços desse comércio se tornaram "intra-firma". Esse tipo de comércio, ou o fenômeno da
produção global, é pouco ou nada afetado pela taxa de
câmbio. Na verdade, nada é mais característico da globalização.
E a inflação? Tendo em vista a influência do câmbio em trazer para baixo
a inflação, somada às doses cavalares de juros, fica difícil explicar a
resistência da inflação a cair abaixo de zero, exceto se entrarmos em
considerações sobre a política de fixação dos preços que o próprio governo administra.
Sim, o BC foi conservador até não poder mais, porque é uma ilha de
racionalidade dentro de um governo desmantelado, e precisa jogar na retranca.
Nada de futebol-arte e estratégias inovadoras, e, sobretudo, nada de buscar a
colaboração de outras áreas de governo, pois só há inimigos à sua volta.
Sim, existe algo errado com o fato de sermos os campeões mundiais de
juros reais, mas o perigo em dizer essas coisas é dar pilha a quem acha que o
problema é de vontade política, e não se trata disso. O BC não pode botar o
juro onde bem entender, o mesmo valendo para o câmbio.
Os juros são muito altos no Brasil porque o "crédito público" (a combinação déficit/dívida, sem os truques contábeis habituais) é uma tragédia. Essa é a explicação "fundamentalista" para os juros altos, que muitos procuram encobrir, tal como se fazia no tempo da hiperinflação, que era tudo menos o que devia ser, ou seja, produto da irresponsabilidade fiscal. Em tempo, apenas quando nos convencemos de que a inflação não era "inercial" ou "neutra" é que conseguimos vencê-la. Com os juros é a mesma coisa: o superávit primário tinha de ser muito maior, pois aí está a raiz do problema. É claro que o ministro Antonio Palocci estava com a razão na querela com a ministra Dilma Rousseff, mas ele perdeu a parada. Pior para nós.