Folha de S. Paulo, 20.01.1993
É
possível usar as reservas para crescer?
Maria Victoria Coates Werneck e Sandra Maria
Polônia Rios
O deputado Delfim Netto, preocupado em identificar alternativas que estimulem a retomada do crescimento, propôs que o governo utilize de US$ 3 bilhões a US$ 4 bilhões das reservas internacionais em um programa envolvendo a construção de estradas e casas populares, além de outros programas de financiamento às importações. Essa não é a primeira manifestação nesse sentido. O acúmulo de reservas internacionais, que somam, atualmente, mais de US$ 20 bilhões, tem estimulado propostas dessa ordem.
Uma das
funções tradicionais do Banco Central
é ser o depositário das reservas
internacionais do país. A
construção de estradas e casas
populares são gastos tipicamente fiscais.
Até meados da década de 80,
quando programas de gastos
públicos ainda eram feitos através das autoridades monetárias, diversas despesas fiscais constavam do
orçamento monetário.
A reorganização financeira
do setor público, que propiciou a
unificação orçamentária completada em 1988, estabeleceu que
todas as despesas de caráter
fiscal passassem a ser financiadas através do orçamento geral da União. Esse
foi um passo fundamental para dar maior transparência às contas
públicas e permitir um maior controle
sobre os gastos
do governo, possibilitando também uma administração mais eficiente da política
monetária. O uso de reservas internacionais para efetuar gastos fiscais fere os
princípios daquela reorganização financeira, além de enfrentar diversas
restrições de caráter legal.
Sem levar
em consideração todas as questões de ordem legal que cercam
esse assunto, de que maneira as
reservas internacionais poderiam
se transformar em
gastos fiscais? Para o Banco
Central “queimar” US$ 4 bilhões de reservas, é preciso convertê-los em
cruzeiros. A colocação das divisas no sistema financeiro privado teria como
contrapartida um fluxo de cruzeiros para o Banco Central, que seriam utilizados para a compra de
títulos da dívida pública mobiliária federal – de emissão nova do Tesouro
Nacional a favor do Banco Central.
Esses recursos financeiros
seriam utilizados pela União para financiar os gastos acima citados. Com isso,
se voltaria ao financiamento direto do déficit público pela autoridade
monetária, revertendo pelo menos dez
anos de esforços para vedar essa possibilidade.
Por fim, a
inundação do mercado
cambial por US$ 4 bilhões em curto espaço de tempo levaria a uma
extraordinária pressão para
a valorização da taxa de
câmbio, desestimulando fortemente as
exportações. As vendas externas,
por sua vez, têm
constituído importante fator
de amenização dos
efeitos recessivos da política
de estabilização. Por outro
lado, uma taxa de câmbio valorizada
induz a um aumento de importações, também
com impactos negativos
sobre a produção
nacional, na medida
em que se estaria substituindo demanda de produtos domésticos
por compras no exterior.
Diante dessas
considerações, o resultado
líquido da estratégia
de retomada do
crescimento via uso de reservas
internacionais parece duvidoso.
Permitir que se
confundam contas do orçamento
monetário com contas típicas do
orçamento fiscal representaria uma volta à desorganização financeira do setor
público – que imperava até meados da década passada -,
além de ir
na contramão da
demanda por maior
autonomia do Banco Central. Por
último, é preciso lembrar que não existe uma fórmula mágica que permita
aumentar gastos fiscais sem aumento do déficit público ou da arrecadação
tributária.
Maria Victoria Coates Werneck, 36, é economista
do Departamento Econômico da
CNI e
professora do
Departamento de Economia da PUC-RJ.
Sandra Maria Polônia Rios,
33, é
economista do Departamento Econômico da CNI
e professora do
Departamento de Economia da PUC-RJ.