OESP, 2 de julho de 2004
O que poderia ter sido
DEZ ANOS DO REAL
ENSEJAM FESTIVAL DE ANÁLISES CONTRAFATUAIS
ROGÉRIO L. F. WERNECK
“Visão retrospectiva é sempre perfeita.” (Hindsight
is always twenty-twenty.) A frase, atribuída à verve de Billy Wilder, diretor de filmes
memoráveis dos anos 50 e 60, poderia encimar boa parte das análises ensejadas
pelos 10 anos do Plano Real. Não têm faltado diagnósticos peremptórios, que
chegam a identificar o momento exato em que erro fatal teria impedido que o
desempenho da economia brasileira viesse a ser incomparavelmente melhor do que
acabou sendo. Mas tem havido também bons depoimentos e análises contrafatuais
instigantes, que ajudam a entender com mais clareza limites e possibilidades da
política econômica adotada a partir de 1994. Para avaliar análises
contrafatuais, é importante ter clareza acerca do que de fato ocorreu. É até
possível que haja muitas maneiras de se contar a história da política econômica
do primeiro mandato de FHC. Mas o mínimo que se pode exigir de todas elas é que
tenham o mesmo desfecho e dele possam dar boa conta. E a verdade é que é
difícil chegar a esse desfecho sem, de alguma forma, contar uma história de
inconseqüência fiscal. Muitos dos relatos e análises do primeiro mandato
subestimam ou tentam relegar ao esquecimento o grau de despreparo da cúpula
política do País para enfrentar a questão
fiscal. Ao longo de 1995, o superávit
primário do setor público, que havia atingido mais de 5% do PIB em 1994,
simplesmente desapareceu. Embora a desaceleração da inflação possa explicar
parte da deterioração, é a política fiscal frouxa que explica a outra parte. O
mais impressionante, contudo, foi quão pouco alarmado pareceu o governo com tão
grave deterioração do quadro fiscal. O retrato emblemático é o recuo de FHC, no
final de 95, diante das pressões em favor da devolução do controle do Banespa
ao Estado de São Paulo, feitas
por alguns dos mais importantes líderes
do PSDB, com apoio ostensivo de parte da equipe econômica. Esperava-se que 1996
fosse ano decisivo para o ajuste fiscal.Mas o governo preferiu dar prioridade à
formação da coalizão política necessária à aprovação da emenda
da reeleição. No BNDES, abriu-se aos
governadores um guichê de facilidades e o resultado primário continuou em
franca deterioração na maior parte de 1996. A emenda da reeleição foi afinal
aprovada no início de 1997. É bem possível que, no PSDB, os mais desabridos se
disponham a argüir que afinal não saiu tão caro. Muito pior para o País,
diriam, teria sido entregar o governo ao PT em 1999, quando o ideário econômico
do partido ainda era completamente xucro. Embora o espectro da chegada do PT ao
Planalto,muito antes de ter passado pelo recente aggiornamento, pudesse
de fato causar calafrios, há no argumento a presunção um tanto discutível de
que, na coalizão governista, já não havia outro candidato, além do próprio FHC,
capaz de vencer a eleição de 1998.
Mesmo que tal presunção fosse razoável,
o argumento de que a política fiscal frouxa do início do primeiro mandato
decorreu de simples pragmatismo político continuaria pouco convincente. Basta
notar que, mesmo depois de aprovada a emenda da reeleição, o Planalto continuou
incapaz de mostrar convicção acerca da importância do ajuste fiscal, até nos
aspectos mais elementares. No primeiro semestre de 1997, deixou que continuasse
prosperando no governo a
idéia que os recursos da privatização
não deveriam ser canalizados para abatimento de dívida pública. A reação
atabalhoada à crise da Ásia, com a montagem às pressas do brancaleônico Pacote
51, parecia ser o início do tão aguardado ajuste fiscal. Mas, quando descobriu
que a simples coreografia da preparação do pacote já havido permitido que o
País atravessasse com relativo sucesso a pior parte da crise, o governo, já
fixado nas eleições, foi aos poucos dando o dito pelo não dito e largando pelo
caminho, em 1998, as promessas de ajuste fiscal. É contra esse pano de fundo de
lamentável desempenho fiscal que devem ser examinadas análises contrafatuais
que tentam vislumbrar o que teria ocorrido se a política cambial tivesse sido
flexibilizada já em 1995. O que se argúi é que o câmbio fixo induziu a
complacência fiscal. E que, se o regime cambial tivesse permitido margem mais
ampla de flutuação, a desvalorização teria sido poderoso indutor talvez pudesse
ter soado convincente em 1995. Mas, com o benefício da visão retrospectiva, é
difícil vislumbrar como um governo que não mostrou disposição política para se
afastar da trilha da inconseqüência fiscal, nem mesmo quando tinha pela frente
a perspectiva quase certa de crise cambial de grandes proporções, teria sido
facilmente empurrado para a disciplina fiscal, em regime de flutuação cambial
limitada, em quadro de relativa fartura de capitais externos. Outra dúvida
importante é se, com uma desvalorização mais pronunciada em 1995, sob inflação
ainda alta e nível de atividade elevado, ainda teria sido possível convergir
para uma inflação baixa o suficiente para que a desindexação fosse consolidada.
É preciso também ter em conta que, se o governo já tinha em mente a emenda da
reeleição, não é de se espantar que preferisse dar sobrevida ao regime de
câmbio fixo.
Não há nenhuma dúvida que a
flexibilização do câmbio em 1995 teria dado lugar a contas externas mais
sólidas. E é interessante especular sobre que desdobramentos a flexibilização
poderia ter tido. Mas a análise contrafatual teria de ser bem mais ampla e
cuidadosa. Tendo
em vista a pouca disposição revelada
pelo FHC do primeiro mandato para enfrentar a questão fiscal, o mais provável é
que tais desdobramentos se revelassem bem menos róseos do que certas análises
sugerem.
¡ Rogério L. Furquim Werneck, economista,
doutor pela Universidade Harvard,é professor titular do Departamento