OESP e JB
21.01.2001
O valor da embalagem
Gustavo H. B. Franco
Há
uma certa mágica nas palavras, quando se trata de discutir os temas mais
controversos da economia. Dependendo da embalagem, o mesmo programa pode ter
uma receptividade radicalmente diferente. Durante muitos anos os economistas de
formação convencional usaram a expressão “ajuste fiscal” para designar o
equilíbrio ou, de forma mais ampla, o saneamento das finanças públicas. O
sentido era o mesmo de um outro vocábulo em economês, “sustentabilidade”, muito
usado para o balanço de pagamentos, mas igualmente apropriado para os balanços
financeiros dos governos. Assim como trajetórias de endividamento externo têm
que ser consistentes com a geração de divisas para pagar a dívida, dado que o
Brasil não emite dólares, a trajetória de endividamento interno tem que ser
consistente com a arrecadação de impostos, já que um governo responsável não
pode pagar a dívida interna com emissão de moeda. Para quem gosta de colecionar
curiosidades um economês (há gosto para tudo), aqui vai um outro termo que
serve para descrever essa consistência: “condição de transversalidade”.
Até
meados de 1994, a crise fiscal estava se agravando, e com ela a hiperinflação,
e ainda assim o “ajuste fiscal” era um fracasso de público, um projeto de
economistas, portanto, coisa de “tecnocratas insensíveis”, como reza a clássica
imprecação. As pessoas comuns não entendiam muito bem do que se tratava, e
evidentemente se arrepiavam apavorados quando ouviam que era aumento de imposto
com corte de despesa. Quem, de bom senso, pode mostrar simpatia por mais
imposto e menos gasto público?
O
fato é que a irresponsabilidade fiscal se tornou uma virtude protegida pelo
desenvolvimentismo inflacionista, que durante muitos anos perpetrou uma
apropriação indébita de Keynes e de suas idéias sobre a Grande Depressão. Com
efeito, nos anos 1930, o déficit
público tinha efeito estimulante para o emprego. Numa economia fechada e em
depressão, como era o Brasil de então, fazia sentido o governo imprimir
dinheiro para comprar café e tocar fogo. Ou gastar com obras públicas,
armamento, estádios e monumentos.Como o livro mais importante de Keynes ficou
conhecido como “A Teoria Geral”, muita gente acreditou que servia para todas as
épocas e lugares, e infelizmente, encerrou aí suas leituras de macroeconomia.
O fato é que, há várias décadas, o equilíbrio
das contas públicas não é levado a sério pelos governos no Brasil, e em nenhuma
das três esferas. Com os critérios que usamos hoje para medir o déficit público
(as necessidades de financiamento do setor público consolidado, no conceito
nominal), ou seja, o prejuízo deixado pelos governo sem nenhum “ajuste
metodológico”, truque ou dedução, para o triênio 1992-1994, foi de 49% do PIB
anuais. Um absurdo escandaloso consistente com o absurdo da hiperinflação que
vivíamos e que ocultávamos sob diversos disfarces conceituais.
De 1995 a 1998 este número caiu para cerca de
7% do PIB anuais em média. Um grande progresso, mas que não nos retirava do
terreno do absurdo. Este número não era e não é consistente com a estabilidade
de preços que se queria implantar no Brasil, ou seja, o “ajuste fiscal” não foi
feito nos primeiros anos do Real, e como o Banco Central não fabricou papel
pintado e inflação para pagar esta conta, a conseqüência foi o aumento
significativo da dívida pública nesses anos.
A explicação é simples mas persiste certa
confusão nesta matéria pois nem sempre se entende quais foram as conseqüências
diretas de o BC adotar a postura de não emitir dinheiro para bancar o “rombo”
nas contas públicas, a saber, adotar políticas de câmbio e de juros que tiveram
de compensar a falta de ajuste fiscal e que lograram sustentar a estabilização
mesmo com o ajuste fiscal tendo sido feito apenas em parte.
A oposição está coberta de razão de se queixar
do aumento da dívida pública ocorrido nesses anos. Foi um absurdo. Só que era a
mesma queixa que a chamada “equipe econômica” fazia contra um outro grupo
dentro do governo, que nunca trabalhou a favor do ajuste fiscal e sempre
pareceu alinhado com as idéias de antigamente sobe o déficit público.
Houve, de fato, muita resistência da oposição
contra as reformas e contra o ajuste fiscal, mas também outro tanto de
hesitação do governo na batalha contra o déficit público em boa medida por que
a oposição (dentro e fora do governo) dizia que o ajuste fiscal era uma “agenda
do mal”, e o governo se apequenava, consumido por um mal disfarçado sentimento
de culpa ao ser chamado de “neoliberal”. Era e continua muito sério o problema
da “embalagem” adequada para o programa de ajuste fiscal.
Em vista deste problema, alguns membros da
equipe original do Real, dentre os quais me incluo, queriam que a Lei
Complementar das Finanças Públicas, prevista nos artigos 163 e 165 da
Constituição, fosse feita logo nos primeiros anos de governo para que
puséssemos de imediato o dedo na ferida da questão fiscal, vale dizer, no
orçamento. A sociedade deveria discutir neste terreno o descompasso entre
receita e despesa. Muitas vozes experientes nos aconselharam a deixar este
assunto de lado, tendo em vista o potencial de encrenca. O tempo passou e
apenas depois do fracasso do Pacote 51 no início de 1998 o governo resolveu
encampar a proposta, sendo que, naquele momento, com uma nova revolucionária
embalagem. Lembro-me bem que quando a nova embalagem (Lei de Responsabilidade
Fiscal) foi apresentada, numa célebre reunião de equipe em meados de 1998, uma
voz graduada reagiu de forma contrariada: “se propusermos uma lei nesses termos
ficará parecendo que nossa política fiscal foi irresponsável durante todos esses
anos”. Um silêncio constrangedor tomou conta do recinto. Dias depois a decisão
estava tomada, e a nova embalagem adotada. Afinal, quem de bom senso pode ser
contra a Responsabilidade Fiscal ?