Globalização*
Gustavo H. B. Franco
As pessoas comuns não sabem bem o que é isso. Boa parte dos especialistas tampouco. Mas não se fala em outra coisa. Será mesmo alguma mudança fundamental, no ambiente internacional, vinda lá do Norte ? Ou o velho imperialismo, na antepenúltima fase, ou, quem sabe, afinal, as tais "perdas internacionais" ? Ou será apenas uma vocalização idiossincrática das ansiedades quanto ao fim do mundo, como é próprio do final do Milênio ?
O que quer que seja, a fascinação é unânime, contra ou a favor.
Na ponta favorável, destaque-se o impacto dos novos produtos, tecnologias e modalidades de negócios, bem como as novas interferências cotidianas produzidas pela Internet, pelos celulares funcionando em toda parte, pelos computadores multi-midia, TV a cabo, noticiário em tempo real, etc. Como não sucumbir a isso tudo ? Simultaneamente (mas não independentemente), mercê do Real, o dinheiro recobrou o seu poder de compra, processo com enorme e pouco entendido impacto sobre o imaginário popular. Os horizontes de escolha disponíveis a produtores e consumidores se ampliam aos limites do planeta, e os laços comerciais e financeiros com o mundo exterior vão se multiplicando em escala sem precedente e mudando (sabe-se lá para onde) a natureza disso que os economistas chamam de "a inserção internacional".
Do lado negativo, o país também se assusta com novas e misteriosas ameaças. Subitamente, tudo que passa pelo mundo nos afeta: a crise do México, a falência dos Barings, o escândalo de Orange County. O anúncio das estatísticas norte-americanas move o preço dos T-Bills de trinta anos, que move o IBOVESPA, e os mercados futuros para boi gordo cambial em São Paulo. Não há dúvida, o mundo parece tão absolutamente mais complexo do que jamais foi. O fascínio, compreensivelmente, cede lugar à insegurança. As cifras inacreditáveis, os jargões, os tais derivativos, a mobilidade do dinheiro, tudo isso parece assustador. Movem-se os trilhões no universo virtual dos mercados, desligados das realidades econômicas intuitivas, vale dizer, desligados do ato de produzir, da fumaça das fábricas e da mais-valia. Isso não pode ser coisa boa: manda prender esse boi, seja esse boi o que for.
O mundo é diferente, não há mais Guerra Fria, o espectro do cataclisma nuclear parece afastado, mas surge, para tomar o seu lugar, o temor da catástrofe financeira. A Suprema Irracionalidade Capitalista, tão absurda quanto a corrida armamentista. O fim do mundo continua factível, mas agora como decorrência da Globalização e de seu fio condutor, o Neo-Liberalismo. Para qualquer um que conheça a explicação junguiana para os discos voadores, e que tenha ouvido o Sub-Comandante Marcos (segundo consta, em entrevista para Regis Debray) dizer que não sabe como deve ser o Mundo Novo, fica clara a semelhança entre o Encontro Intercontinental pela Humanidade e contra o Neo-Liberalismo, recentemente promovido pelo Movimento Zapatista no México, e um grande congresso de UFOlogia.
Não há conclusão sobre globalização. Resta apenas reafirmar que o Brasil era muito mais simples quando apenas produzia café, as cidades eram vilarejos familiares e nos entusiasmávamos com a luta pela industrialização, pela superação da Dependência ou pelo "projeto nacional". A nostalgia é um excelente álibi para os críticos a "isso que aí está", essa gente que dá expressão a um ressentimento difuso pela idéia de mudança, à preguiça mental em entendê-la ou à frustração pela sua direção.
*
Publicado com o título "A mudança e a preguiça mental" Carta Capital 21.08.1996.