Política econômica Grupo
de economistas do Real não deve participar do novo governo
Chega ao fim a hegemonia da PUC
Ribamar Oliveira, De
Brasília
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O fim do
governo Fernando Henrique Cardoso marcará o ocaso da mais duradoura hegemonia
de uma faculdade na condução da política econômica do país. Em dezembro, o
grupo de economistas originários da Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro (PUC-Rio) completará nove anos e sete meses no comando das decisões
econômicas. Mesmo que o candidato do governo ganhe as eleições presidenciais de
outubro, a equipe deverá ser trocada.
Armínio
Fraga, presidente do Banco Central, é o único integrante de peso do grupo da
PUC-Rio, que ocupa cargo importante, que poderá permanecer no governo, caso o
candidato do PSDB à presidência, José Serra, ganhe as eleições. De acordo com
pessoas próximas a Serra, ele considera que a política cambial executada por
Armínio é correta e inteligente. Mas isso não significa um compromisso pessoal
e nem político entre ambos sobre a permanência do presidente do BC.
O problema
é que Armínio tem dito a amigos que se sentiria mais confortável para
permanecer no cargo se o Congresso aprovar a lei que dá autonomia operacional
ao BC e mandato a seus diretores. Ninguém no PSDB desconhece que Serra é contra
essa autonomia. Além disso, no quadro político atual, dificilmente o projeto
que dá nova redação ao artigo 192 da Constituição, e que permitiria a aprovação
da lei sobre o BC, será aprovado.
Os demais
candidatos à sucessão de FHC querem trocar toda a equipe econômica, inclusive
Armínio. Mas é evidente que, sendo a PUC-Rio uma escola de excelência em
economia, professores seus ou mesmo ex-alunos serão convidados a participar de
futuros governos. O improvável, no entanto, é que se repita a hegemonia que
ocorreu durante o governo Fernando Henrique.
O
ex-presidente do BC Gustavo Franco acha que os economistas formados pela PUC
vão continuar sendo chamados para o governo. "Não há mais lugar para
amadores no comando da economia e a PUC é uma das escolas de elite a formar os
melhores profissionais do país", diz. "O governo Fernando Henrique
marca o início do predomínio da racionalidade econômica, da teoria e do
profissionalismo em gestão da política econômica, e a perda de espaço do
populismo, do estruturalismo, do desenvolvimentismo e do voluntarismo
social".
Para
Edward Amadeo, ex-ministro do Trabalho e ex-secretário de política econômica,
"a participação dos economistas da PUC no debate público continuará".
Os fatos estão lhe dando razão. O economista José Márcio Camargo, da mesma
escola, propôs a criação do seguro social universal - o carro chefe do programa
econômico apresentado recentemente pelo PMDB.
O
"grupo da PUC-Rio" começou a entrar no governo quando, em maio de
1993, FHC foi escolhido pelo presidente Itamar Franco para ocupar o Ministério
da Fazenda. Ele estava nos EUA. De Nova York, FHC convidou o economista Winston
Fritsch para fazer parte da nova equipe econômica. Convidou também Edmar Bacha
para uma reunião em Brasília no dia seguinte. Bacha resistia a entrar no
governo. Logo em seguida, foram feitos convites a André Lara Resende e Pérsio
Arida.
FHC pediu
a Pedro Malan que permanecesse no cargo de negociador da dívida externa,
atribuição que ele vinha desempenhando desde a gestão do ex-ministro Marcílio
Marques Moreira. O convite a Gustavo Franco também veio dos EUA e foi feito por
Malan. Ele lembra de ter recebido um telefonema de Armínio Fraga, que, na
época, trabalhava para George Soros, mas mantinha freqüentes conversas com
Fernando Henrique.
Quando o
então líder do PSDB na Câmara, deputado José Serra (SP), soube dos nomes dos
economistas escolhidos por Fernando Henrique, não conteve sua insatisfação.
"Mas é tudo gente da PUC-Rio", comentou. Durante os dois mandatos de
FHC, Serra tornou-se o principal opositor dentro do governo às idéias do
"grupo". Ele liderou o que veio a ser conhecido como "grupo desenvolvimentista"
- integrado por ministros e assessores do alto escalão que defendiam uma agenda
que desse prioridade ao crescimento econômico, estímulo às exportações e
criação de uma política industrial.
Serra era
chamado de "cepalino" por alguns integrantes do grupo da PUC-Rio, uma
referência aos anos em que ele trabalhou na Comissão Econômica para a América
Latina e Caribe (Cepal), órgão da ONU. O termo é geralmente usado para
qualificar um economista estruturalista, que identifica grandes falhas na ação
do mercado. Fora do governo, o grupo enfrentou uma oposição sistemática do
ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, deputado Delfim Netto (PPB-SP),
sobretudo durante o primeiro mandato de FHC, quando prevaleceu a política de
câmbio fixo e altas taxas de juros.
A época em
que Delfim comandou a política econômica brasileira também foi marcada pelo
predomínio de uma escola: a Universidade de São Paulo (USP), que forneceu os
economistas para os principais cargos da área econômica. No passado, outros
centros de estudos tiveram a hegemonia na condução da política econômica, como
foi o caso da Fundação Getúlio Vargas (FGV), na época de Eugênio Gudin. Mas
nenhum deles por tanto tempo.
Ao todo,
13 economistas originários da PUC-Rio ocuparam os mais importantes cargos da
área econômica durante os dois mandatos de Fernando Henrique. Passados esses
anos, Malan parece figurar como elemento central do "grupo" por
causa, principalmente, da estreita relação que passou a ter com o presidente da
República.
Assim que
pode, FHC colocou Malan no BC. Quando deixou o Ministério da Fazenda para
concorrer à Presidência da República, tentou por duas vezes deixar Malan em seu
lugar. Não conseguiu. O presidente Itamar Franco preferiu Rubens Ricupero e,
com a queda deste, o governador do Ceará, Ciro Gomes.
Se Malan
passou a ser o preferido de FHC e outros membros do grupo foram os formuladores
das principais idéias do Plano Real, não há dúvida que o grande operador da
equipe, no início do Plano Real e no primeiro mandato de Fernando Henrique, foi
Gustavo Franco. A ele é atribuída a operacionalização da Unidade de Referência
de Valor (URV), a redação da própria medida provisória do Real e a gerência da
política cambial do primeiro mandato.
FHC já
conhecia, há longo tempo, o trabalho acadêmico de Bacha e Malan. Bacha era
filiado ao PSDB. Conhecia também Winston Fritsch, que na campanha de Mário
Covas à Presidência da República, em 1989, fez parte da "Comissão de
Programa", presidida por FHC. Tinha respeito e admiração por eles e deixou
que escolhessem os demais integrantes da equipe econômica.
No
primeiro momento, a cúpula do PSDB quis saber que tipo de autonomia Itamar
Franco iria dar a Fernando Henrique no Ministério da Fazenda. Todos temiam a
instabilidade do presidente e sua implicância com o Banco Central, o qual só
chamava de "caixa preta". Fizeram uma reunião para discutir essa
questão. "A escolha de toda a equipe econômica foi obra exclusiva de
Fernando Henrique e do PSDB. Itamar deu inteira liberdade a eles", lembra
o senador Roberto Freire (PPS-PE), que na época era deputado e líder do governo
na Câmara.
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Quando soube dos
nomes escolhidos por FHC, Serra não se conteve: "Mas é tudo gente da PUC
do Rio" |
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Com total
liberdade, FHC concentrou-se no grupo da PUC-Rio, a partir de Bacha, Fritsch e
Malan, todos professores ou ex-professor da universidade. A eles juntaram-se
Gustavo Franco, Pérsio Arida e André Lara Resende , que também estudaram ou
foram professores da mesma escola. Depois vieram Chico Lopes, Demóstenes Madureira
Pinho Neto e Edward Amadeo. No segundo mandato, chegaram Armínio Fraga, José
Guilherme Reis, Ilan Goldfajn e Beni Parnes, tendo esse último assumido seu
posto de diretor do BC em janeiro último.
A única
exceção, no início, foi a escolha do executivo Clóvis Carvalho, que saiu da
empresa
Ao
ingressar no Ministério da Fazenda em 1993, o grupo tinha uma noção clara do
que fazer. "Fizemos um diagnóstico detalhado cujas grandes linhas eram
baseadas na idéia de que o velho modelo de desenvolvimento sustentado em
inflação e fechadura estava falido e que a expressão dessa falência era a
hiperinflação", diz Gustavo Franco. Bacha resume: "Era preciso
debelar a inflação para pensar o desenvolvimento. Para isso, o primeiro passo
era um ajuste fiscal, via Fundo Social de Emergência (FSE). O segundo, a
desindexação, via URV. Depois, agüentar o tranco, para não repetir os erros do
passado. E, então, partir para as reformas que assegurassem o crescimento da
produtividade e a retomada da formação de capital".
A
hegemonia começa no nascedouro do Plano Real. "O grupo chegou ao governo
em maio de 1993, quando a maior parte dos outros 'grupos' estava escondida sob
da mesa para não assumir o país com 35% de inflação por mês e ter de preparar
alguma coisa tendo como presidente o Itamar, que era contrário, e continua
sendo, a tudo que entendíamos como essencial a título de reformas. Ou seja, os
cargos estavam, por assim dizer, vagos. Entramos e colocamos as coisas para
funcionar", lembra Gustavo Franco.
Bacha
prefere falar em "influência" e não em hegemonia conquistada pelo
grupo da PUC-Rio. "Boas idéias, experiência prévia de governo e mais a
integração política com o PSDB garantiram a influência, não a hegemonia do
grupo", diz ele. "A coisa funcionou por causa de uma 'química'
pessoal muito boa, associada a um grande respeito intelectual mútuo".
A
intimidade entre os integrantes do "grupo" era grande e as coisas
passaram a ser decididas numa espécie de "bunker" - uma reunião no
Ministério da Fazenda toda terça-feira pela manhã. Nessas reuniões, lembra
Gustavo Franco, não havia distinção entre assessor, ministro, ou secretário.
Quase tudo era decidido por consenso. Uma vez instalado na presidência, FHC
mudou a sistemática e a hierarquia dos cargos terminou dissolvendo o
"bunker". O presidente e Clóvis Carvalho resolveram criar
"Câmaras" para discutir assuntos variados, como comércio exterior, de
infra-estrutura, e para coordenar decisões e recriar um pouco a dinâmica de
decisão coletiva que existia anteriormente.
Edward
Amadeo, que entrou no governo a convite do ex-ministro do Trabalho e do
Planejamento, Paulo Paiva, também acha que não se deve falar em
"hegemonia" do grupo PUC-Rio. "O que há é um conjunto de
conceitos e ações associados que fazem sentido lógico, com ramificações em
diferentes áreas das políticas públicas, e que vêm sendo trabalhados há mais de
15 anos. Esse conjunto, ou pelo menos o seu núcleo, é compartilhado pelos
economistas que estão no governo e pelos que permaneceram na Gávea
também", observa, numa referência ao Bairro em que está localizada a
PUC-Rio.
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As decisões passaram
a ser decididas numa espécie de "bunker": reuniões na Fazenda toda
terça-feira |
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Winston
Fritsch acha que a "hegemonia" é sempre o resultado de idéias e
propostas. Ele atribui o predomínio do grupo no governo Fernando Henrique
Cardoso "à produção de trabalhos cientificamente rigorosos, mas focados em
temática relevante para a política econômica do Brasil (inflação, política
fiscal, liberalização do mercado, etc)".
A primeira
divergência pública entre eles ocorreu com a crise do México, no final de 1994
e início de 1995. Gustavo Franco e Pérsio Árida se desentenderam sobre que
caminho adotar na área cambial. No início de 1995, o então ministro do
Planejamento José Serra quis colocar em votação uma maxidesvalorização do Real
durante a primeira reunião da Câmara de Política Econômica. Participavam da
Câmara, Clóvis, Malan, Serra e Pérsio. "Malan disse que isso não era para
ser decidido por 4 pessoas. Serra, porque tinha acabado de chegar; Pérsio,
porque estava meio afastado do tiroteiro no
O assunto
foi levado a Fernando Henrique, que mandou reunir toda a equipe. Tentou-se uma
medida conciliatória entre Franco e Arida, que não deu certo. A desvalorização
ficou em 5%, a opção das bandas cambiais com correções graduais proposta por
Franco prevaleceu e Pérsio Arida, que queria uma desvalorização maior, saiu do
governo. Hoje, Franco acredita que aquela crise poderia ter sido melhor
resolvida se o assunto tivesse sido discutido apenas entre ele e Arida.
"Acho que chegaríamos a uma fórmula, mas com todo aquele povo, e alguns de
má fé, acabou dando confusão".
Aquela foi
a primeira crise. A maior, no entanto, ocorreu com a desvalorização do real de
1999, que ainda está na memória de todos. Saíram Gustavo Franco e Chico Lopes
no espaço de dois meses. Mas entrou Armínio. (Colaboraram Cláudia Safatle e
Ricardo Amaral)