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22.12.2004 |  Quando o presidente Luiz Inácio da Silva fez o balanço de seus dois anos de governo, projetando os próximos dois, os carimbos do Planalto sentiram um grande vazio existencial. Lula praticamente limitou-se a repetir alguns refrões imortalizados por Pedro Malan, com o cuidado de ressalvar que “não demos continuidade às políticas do governo anterior”. Aquele discurso sem passado e sem futuro levantava dúvidas: como farão para manter essa espécie de Governo Zero? Mas a resposta está cada vez mais clara e é simples: na marra.

Antônio Rayol tem 48 anos, 27 de Polícia Federal. É um estudioso de políticas de combate à lavagem de dinheiro, matéria que lhe deu um título de pós-graduação. Homem aberto ao debate público, ele tem sido um interlocutor destacado particularmente nas questões que envolvem conluio entre advogados e o crime organizado. Rayol teve uma gestão inatacável à frente da Delegacia de Entorpecentes da PF e apenas iniciava seu trabalho na Delegacia do Meio Ambiente. Este policial foi chutado de seu cargo, poucos meses após realizar uma blitz na rinha de galos onde estava o publicitário Duda Mendonça.

O governo comprou uma briga dura. Rayol acaba de despejar no Ministério Público Federal uma coleção de documentos mostrando o rastro deixado pela patrulha oficial do PT. “Tenho provas documentais de que a direção do DPF deu tratamento diferenciado ao caso Duda Mendonça”, afirma o delegado. O dossiê já está nas mãos do procurador da República Rodrigo Ramos Poerson.

No relatório de Rayol também estão narrados, passo a passo, os fatos “estranhos e incomuns” que cercaram a transferência de dois agentes, Marcelo Marques Guimarães e Luiz Amado Machado, do Rio para Macaé e Campos. Ambos estavam à frente da operação contra a rinha da qual participava o publicitário, preso em flagrante na ocasião. A transferência da dupla se deu dias depois da blitz, contra a vontade de ambos, e acarretando um custo adicional à Polícia Federal – que por deslocar funcionários para longe de suas residências é obrigada a um acréscimo salarial. O agente Amado entrou em crise de hipertensão, teve um colapso nervoso, sofreu uma queda com fraturas e está sob sedativos.

O delegado Antônio Rayol está tranqüilo porque afirma que qualquer inquérito justo e equilibrado, baseado nas provas que reuniu, constatará a motivação política na sua destituição do cargo, e na transferência de seus agentes. “O que aconteceu constitui aquilo que em linguagem jurídica se chama de improbidade administrativa e prevaricação”, afirma Rayol. Ele diz confiar plenamente na independência do Ministério Público e afirma não temer ser jogado na geladeira ou outras represálias: “Prefiro perder a chefia do que perder a vergonha”.

Em seu balanço de dois anos, Lula declarou que “a sociedade tem podido expressar-se da forma mais livre possível”. Poderia ter acrescentado: “desde que não chateie os amigos do presidente”. Segundo o relato de Rayol, antes de ser preso na rinha, Duda Mendonça deu-lhe a famosa carteirada: “sou assessor do presidente”. O delegado, evidentemente, ignorou a chantagem e efetuou a prisão do mesmo jeito.

Há muito tempo o Brasil não ouvia histórias desse tipo, tão familiares ao período de arbítrio, em que a sociedade era convidada no cotidiano a não se meter com os donos do poder. Lula continua enxergando no espelho o democrata que sempre foi, mas esta imagem não parece refletir os métodos crescentemente autoritários que seu partido e seu grupo político têm adotado à frente do governo. A manipulação da CPI do Banestado, por exemplo, foi um dos episódios mais graves da crônica recente da República.

Se o Brasil não estiver doente, a recomendação de indiciamento do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco terá o efeito lamentável resumido pelo senador Pedro Simon: terá sido o funeral das CPIs. O relator do PT pinçou uma medida monetária de liberalização cambial para acusar Gustavo Franco (que servia ao governo FH) de criar um duto para o envio de dinheiro sujo para o exterior. É mais ou menos como acusar Santos Dumont pelo atentado contra as Torres Gêmeas.

O PT precisa entender que o patrulhamento político ostensivo, num regime de liberdade plena, tem pernas curtas. Collor tentou ganhar no grito e saiu pela porta dos fundos. E deve-se observar que ele tinha despachantes bem mais ousados que um Waldomiro Diniz. Se Lula pretende deixar o Ministério Público, a Polícia Federal e a imprensa trabalharem, isto é, se não estiver acometido de uma irresistível nostalgia do AI-5, o melhor é começar a pensar em fazer a única coisa que não prometeu no seu performático balanço de dois anos: governar.




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