Nota de Despedida
- Já faz algum tempo que eu venho contemplando a idéia de
deixar a Presidência do Banco Central. As razões para isso são, em primeiro lugar, de
ordem pessoal: a necessidade de me dedicar mais aos assuntos familiares, há tempos em um
injustificável segundo plano. Mas são também, e principalmente, de ordem profissional:
o desgaste natural depois de cinco anos ininterruptos de trabalho, como Secretário
Adjunto de Política Econômica, Diretor da Área Externa e, finalmente, Presidente do
Banco Central do Brasil. Há também a necessidade de buscar novos desafios, e de dar
lugar a outros com mais ímpeto para continuar a aprofundar as linhas de atuação do BCB
e ajudar a consolidar o Plano Real.
- Sempre tive claro que o Plano Real não pode depender da
colaboração individual de pessoas especiais, e que é uma obra coletiva, coordenada pelo
Presidente da República, e patrimônio da Nação.
- Já faz tempo, também, que venho amadurecendo a idéia que
necessitamos flexibilizar as políticas de juros e de câmbio, de modo a superarmos a
crise e retomarmos o crescimento. O mundo mudou, e é preciso responder a estas novas
circunstâncias de forma positiva e criativa.
- Na verdade, há tempos venho dizendo que a agenda da
estabilização gradualmente veio a se transformar numa agenda do desenvolvimento. Isto
significa que devemos alterar as ênfases e as prioridades, adaptá-las a novos objetivos
e circunstâncias e, em consequência, também remanejar pessoas.
- Os desafios se renovam, e as pessoas também. Jamais seria
minha intenção servir como embaraço a natural reorientação das políticas de juros e
câmbio, conforme desejo do Presidente da República.
- Assim sendo, tornou-se natural que os dois assuntos
meu desligamento e a flexibilização nas políticas de juro e câmbio devessem ser
considerados em conjunto, e que ao meu sucessor coubesse o trabalho de formular e conduzir
as alterações nas referidas políticas.
- Em instantes, o Professor Francisco Lopes, que vai me
suceder, vai estar lhes falando sobre o futuro. O Professor é pessoa da maior
competência, de grande experiência no trato dos mercados e está perfeitamente
capacitado para conduzir as mudanças.
- Foi dele a formulação e será dele a condução das
mudanças. Tomei conhecimento dos detalhes e apoio integralmente as alterações, e tenho
toda certeza que serão bem sucedidas.
- Estou, no presente momento, entrando em férias (tenho 60
dias acumulados) enquanto o Diretor Francisco Lopes assume interinamente a Presidência do
Banco Central do Brasil e, simultaneamente, o seu nome é submetido pelo Senhor Presidente
da República ao Senado Federal para a Presidência desta casa.
- Tão logo o Diretor Francisco Lopes tenha seu nome aprovado
pelo Senado e seja nomeado pelo Senhor Presidente da República, eu formalizarei o meu
desligamento do BCB.
- Isto não encerra, todavia, a minha colaboração com o
Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso. É firme desejo do Senhor Presidente da
República que eu permaneça trabalhando próximo a ele, numa função de assessoria na
qual, desincumbido de responsabilidades executivas e administrativas, creio poder ajudar o
Presidente numa reflexão mais geral sobre a economia, em planos estratégicos e projetos
especiais que a dura rotina de uma função executiva jamais deixa tempo para
consideração.
- O Presidente da República decidiu criar um Conselho de
Assessores Econômicos, na montagem do qual eu estarei envolvido e , possivelmente,
ocuparei uma de suas cadeiras. O Brasil precisa de idéias novas, e este Conselho poderá
servir de veículo para a sua concepção e expressão.
- Durante esses 5 anos e oito meses de trabalho, em várias
funções, participei de inúmeras batalhas, trabalhei pelo Brasil, com toda a minha
energia e toda dedicação possível. Não se tem noção do quanto é desgastante e
solitária a defesa de princípios, a execução de políticas impessoais, voltadas para a
maioria, freqüentemente contrariando interesses poderosos e despertando ressentimentos. A
defesa da moeda não conta com a ajuda de "lobbies", nem grupos de pressão. O
trabalho de se evitar a tributação do pobre através da inflação traz benefícios a
maiorias silenciosas e desorganizadas, cuja voz se faz ouvir apenas ocasionalmente, no
momento de eleições.
- Mas é com satisfação que olho para trás, para o trabalho
realizado e para as transformações que o Brasil experimentou e para as quais tive a
alegria de contribuir. A abertura, a estabilização, a privatização, as reformas
previdenciária e administrativa, o reordenamento do sistema financeiro, são
transformações que terão seus efeitos ainda por muitos anos à frente, para o bem do
país.
- Tive a honra e a satisfação de trabalhar com alguns dos
melhores brasileiros que existem, a começar pelo Presidente da República, sob cuja
liderança o Brasil tem atravessado todas essas mudanças e de quem não tem faltado a
coragem para mudar.
- Gostaria de agradecer especialmente a meu amigo Pedro Malan,
pela confiança em mim depositada, pelo apoio nas horas difíceis e pelas incontáveis
lições ao longo do caminho.
- Foram muitos os amigos feitos aqui, especialmente dentre os
funcionários desta casa. A esses todos eu gostaria de estender os meus agradecimentos
mais sinceros pelo apoio e pela confiança depositada.