Veja
29.09.1999

Capitais de motel
Gustavo H. B. Franco

Minha memória registra pela primeira vez o uso da terminologia acima pelo então Senador Esperidião Amin, referindo-se a um dos mais contumazes vilões da globalização, os capitais voláteis, criaturas do mundo off-shore, sem raízes nem compromissos, e amaldiçoados, como o Holandês Voador, a errar sem jamais encontrar um porto. A expressão é um achado. É o capital em pecado, vagando sem destino, na sua plenitude, deixando evidente sua proverbial covardia, mesmo diante de elevados retornos.

A oposição, que por ofício não gosta mesmo do personagem, rapidamente se apropriou não tanto da imagem, mas do conceito. Muitas reuniões enfumaçadas devem ter ocorrido para que se decidisse finalmente cunhar a expressão "dependência de capitais especulativos" (afastando, assim, os motéis do assunto pois afinal, como ensina Marx, o capital é uma respeitável relação social). Com isso tínhamos uma sopa de letras com tudo que vinha trazendo ansiedade às pessoas, e uma palavra de ordem que era então distribuída por todos os núcleos e células partidárias. Depois de algum tempo, com a ação silenciosa e diligente da militância, tínhamos um mantra, recitado pelos garis e ascensoristas encantados com a sonoridade das palavras, assim como pelos professores de ensino secundário nas aulas de geografia Brasil afora.

O fato é que é tão destituído de significado falar nessa tal dependência, quanto alegar que ela não existe mais. Palavras de ordem são tautologias: não podem ser refutadas, conforme ensina o filósofo Karl Popper, nem tampouco confirmadas. A realidade com que nos deparamos é que existe maior mobilidade de capitais, tanto para os especulativos e de motel, quanto para os de família, respeitadores e produtivos. Todos estão se movendo com extrema rapidez na economia da informação total e na superfície fluida da globalização que hoje vivemos. Para nós brasileiros isso é uma novidade, algo que vinha ocorrendo há mais tempo pelo mundo, mas que a hiperinflação não nos deixava perceber. Queiramos ou não, esse capitais, bons e maus, são parte da paisagem em qualquer economia de mercado aberta, normal e com saúde.

Todo o problema com essa novidade – e eu não estou certo se isso é um problema e não uma solução – é que a presença de capitais que se movem com grande rapidez, nacionais e estrangeiros, limita as alternativas de política econômica. Diz a teoria, e ensina a experiência (e não vamos aborrecer o leitor com as explicações técnicas), que, na presença de mobilidade de capitais, um país com as contas fiscais em ordem pode escolher uma dentre duas políticas: a monetária (a taxa de juros) ou a cambial. Para ter as duas, ao menos durante algum tempo, o país precisaria fechar a torneira dos capitais. Mas se não tiver contas fiscais em ordem, não vai conseguir nenhuma das duas.

Uma desconfortável implicação dessas leis da economia é que a presença dos "capitais voláteis" resulta em um constrangimento muito específico à soberania nacional: toda e qualquer irresponsabilidade fiscal será punida exemplarmente, seja sob a forma de ataques especulativos, seja pelo exercício da mais absoluta indiferença. A impunidade acabou. E se é isso que, ao fim das contas, perdemos com a globalização, a saber, a liberdade de fazer bobagem, fico me perguntando se tudo isso não é para o bem.

Por último, é necessário não esquecer que não faz muito sentido criminalizar os capitais estrangeiros de motel, quando os nacionais são chegados às mesmas práticas. Afinal de contas, a duração média da dívida mobiliária federal , que atingiu R$ 285 bilhões em agosto, é inferior a 3 meses. Uma interpretação meio matreira é a de que a poupança financeira nacional também é de motel. Outra é lembrar que o déficit público (no conceito nominal, sem truques) foi de 15% do PIB de janeiro a junho de 1999 e de 12% do PIB nos últimos doze meses. Que capital vai querer relações duradouras com um cliente assim ?