Veja
28.02.2001
O General Ludd e seus imitadores
Gustavo
H. B. Franco
Existem registros de pelo menos três personagens que,
durante os séculos XIII e XIV, podem ter sido a matriz para Robin Hood, que
aparece em seu formato atual apenas em poemas narrativos, bem mais tarde, no
final do século XV. Nesta ocasião, a Floresta de Sherwood estava se convertendo
em pastagem, e Robin havia se tornado uma espécie de herói “folk” a representar
a integridade da Natureza e a santidade da Tradição, ambas ameaçadas pelo
Progresso. A literatura (Sir Walter Scott em Ivanhoé, por exemplo) e depois o
cinema (Errol Flyn, Richard Gere, Kevin Costner) tratam Robin com extrema
simpatia, o que definitivamente não ocorre com um outro herói “folk” da mesma
região, porém de alguns séculos adiante: o General Ned Ludd. Pouca gente sabe o
que fez este general, que batalhas travou e contra quem.
A partir de 1811 diversos episódios de depredação e
baderna, tendo sempre como alvos máquinas e fábricas, se multiplicaram em
espantosa proporção na Inglaterra. A autoria dos atentados era difícil de
asseverar; eram comunidades inteiras envolvidas no que parecia um movimento
“orgânico” e espontâneo. Os eventos eram sempre precedidos, ou seguidos de
manifestos e ameaças assinados por um personagem imaginário, Ned Ludd, um
pseudônimo adotado por vários líderes do movimento, depois promovido a General.
Em 1813 estimava-se que cerca 2400 teares a vapor
estivessem operando no país; em 1830 o número deve ter atingido 100 mil. Era a
“revolução industrial”, um processo que o historiador David Landes descreveria,
em seu clássico estudo (“Prometeu Desacorrentado”) como o início de um
doravante indissolúvel casamento entre a Ciência e a Produção fadado a mudar o
mundo.
Foi o próprio Marx quem chamou atenção em 1848 para o
fato de que o progresso material da humanidade nos últimos cem anos tinha sido
maior do que em toda a experiência humana anterior. Quem olhasse à sua volta,
todavia, enxergaria uma nova a assustadora realidade: fábricas que pareciam
masmorras, poluição, trabalho infantil, jornadas desumanas, desemprego
tecnológico, todo o combustível necessário para alimentar os piores pavores
sobre o futuro daquela “nova economia” que ali se constituía.
Naquele momento o homem parecia se sentir
especialmente desconfortável com os avanços da Ciência, como bem demonstrava o
ludismo. Os simpatizantes eram muitos. Lord Byron lhes dedicou um poema, e Mary
Shelley, cujo marido andou organizado donativos para o movimento, levaria às últimas conseqüências os pavores
com os rumos da Ciência, no que podemos hoje tomar como uma angustiada metáfora
dos dilemas hoje envolvidos na biotecnologia: “Frankestein, o Prometeu Moderno”
(de 1818).
O fato é que a popularidade do General Ludd dependia muito de condições
econômicas ocasionalmente desfavoráveis advindas, em particular, da guerra com
a França e do bloqueio continental. Não eram contradições fundamentais do
sistema, como supunha Marx e diversos outros inimigos do capitalismo. Encerrado
o conflito, explode crescimento inglês na segunda metade da década de 1810 e o
General Ludd desaparece quase sem deixar vestígio.
Nos dias de hoje,a humanidade encara com muito mais naturalidade os
avanços da Ciência, mesmo os que ocorrem no terreno onde Mary Shelley tanto se
assustou. Por isso mesmo é patética e descabida a iniciativa deste senhor
francês Jean Bové, herói de recente congresso em Porto Alegre, acompanhado de
militantes do Movimento dos Sem Terra, em destruir uma plantação experimental
de soja transgênica. Seria uma indulgência imerecida buscar o “pedigree” desta
iniciativa, ou de ataques às lanchonetes do MacDonalds, no já esquecido General
Ludd. Bové está mais para uma inversão de beijoqueiro de esquerda, ou a serviço
do protecionismo agrícola europeu, destinado às páginas próprias ao grotesco.
Infelizmente, Bové não conseguiu macular nossa reputação de impunidade diante
de baderneiros, pois não foi obrigado, junto com seus cúmplices do MST, a
ressarcir os prejuízos que causou. Pelo menos uma das lições que aprendemos
desde os luditas é a de que a propriedade privada não é um roubo, e se foi
danificada de má fé, o dano deve ser reparado pelo seu autor.
No meio político todos dizem que é prematuro definir candidaturas, programas e alianças para 2002. Mas no mercado financeiro a eleição esquentou nesta semana, quando o Tesouro vendeu títulos com vencimento no quarto mês do próximo governo. Consultores e oráculos debruçaram-se sobre diferentes cenários, e o que mais surpreendeu foi a descrença em mudanças radicais na economia no caso de uma vitória da oposição. Esta percepção baseia-se na dificuldade prática, para não falar da inconveniência política, de se reverter, ainda que parcialmente, as principais reformas do período FHC: estabilização, abertura, privatização e responsabilidade fiscal.