Veja
14.02.2001
Subsídios esquecidos
Gustavo
H. B. Franco
Em muitas instâncias a intervenção do Estado na economia resulta em
ampliar a desigualdade e frustrar seus próprios propósitos. Muitos subsídios,
por exemplo, são concedidos a quem não deveria recebê-los e nem sempre a
Sociedade tem clareza sobre a real natureza do benefício. Com a intenção
louvável de iniciar uma discussão sobre este assunto a Secretaria de Política
Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda publicou um extenso e controverso
relatório sobre “renúncias fiscais e subsídios”. O estudo foi muito criticado
por ter incluído neste rol os impostos não cobrados das exportações e das lojas
francas, por exemplo, dando a impressão de que essas “liberalidades” deveriam
ser revistas. O estudo não foi propriamente um sucesso de bilheteria, mas
acabou, a meu juízo, acertando no que não viu. Existem alguns mega-subsídios,
que não costumam ser definidos como tal, e por isso escapam mais ou menos
ilesos do julgamento da opinião pública. Um exemplo importante é o das
aposentadorias pagas pelo setor público para as quais o beneficiário pouco ou
nada contribuiu ao longo de sua vida laboral. Outro é o subsídio dado aos
filhos das famílias abastadas que estudam gratuitamente nas universidades
públicas. Nenhum dos dois aparece no estudo.
Como é bem sabido, nosso sistema de Previdência Social é fortemente
deficitário e o problema reside principalmente nos aposentados do setor
público, cujas contribuições sequer chegam perto da despesa. Como quem banca a
diferença é o contribuinte, a grande pergunta é por que o nosso dinheiro tem
que financiar a aposentaria, por exemplo, de um ex-parlamentar, que ganhou este
direito trabalhando durante dois mandatos apenas?
A questão aqui é simples: a aposentadoria do “barnabé” deve ser
financiada pelas contribuições de ativos e inativos ou pelas poupanças passadas
(capitalizadas) dos próprios “barnabés”. Portanto, quando o dinheiro dos
impostos é usados para cobrir essa conta temos subsídio na veia.
Justiça seja feita, foi exatamente contra isto que se insurgiu o governo
Fernando Henrique ao formular suas propostas de reforma da Previdência as
quais, infelizmente, acabaram aprovadas apenas pela metade. O “rombo” continua
e o relatório da SPE não apenas silencia sobre o assunto, como registra que
existem muitas “renúncias previdenciárias” dando a impressão absolutamente
errada que o problema ficaria menor com a extinção do “Simples” ou com a
cobrança das contribuições de entidades filantrópicas e de clubes de futebol.
No ensino superior o problema é semelhante, na medida que a maior parte
do dinheiro público é gasta com as universidades federais. Elas
custam R$ 6.2 bilhões anuais (1997) para 442 mil alunos, 404 mil dos quais de
graduação, ou seja, R$ 14,1 mil per capita. Pesquisas mostram que cerca de 60%
dos alunos pertencem às classes A e B, proporção que deve ser maior em São
Paulo, e menor no resto do país.
As
estimativas para a receita que se poderia obter da cobrança de mensalidades são
muito variáveis. Se 70% dos alunos pudessem pagar um salário mínimo mensal,
chegaríamos a R$ 600 milhões anuais. Há cálculos extra-oficiais do próprio MEC
que levariam as receitas (ou as renúncias) ao triplo deste valor, mesmo
livrando aqueles que não podem pagar. Muita coisa pode ser feita com esse
dinheiro dentro da própria universidade: o sequenciamento da Xylella
fastidiosa, por exemplo, uma das maiores vitórias da pesquisa científica
nacional, custou pouco mais de R$ 20 milhões.
O verdadeiro problema aqui, todavia, é o de
reconhecer que a gratuidade para ensino universitário público implica em um
enorme subsídio, várias vezes maior que a “renúncia”, esta sim reconhecida pela
SPE, ensejada pelas deduções da base de cálculo do imposto de renda para gastos
com instrução.
Em conclusão, um subsídio de grandes dimensões pode
permanecer oculto ou ileso durante muitos anos quando a hipocrisia conceitual é
trabalhada com competência pelos beneficiados.