Veja
11.04.2001
Um novo FGTS?
Gustavo
H. B. Franco
Antigamente se dizia do FGTS que se tratava de
“poupança forçada”. Estávamos no regime militar, e sempre que possível,
punha-se ênfase no fato de que as coisas eram “forçadas”. Afinal, o regime era
de força e o FGTS uma de suas criaturas. Mas o tempo passou, e o FGTS acabou
promovido a “patrimônio do trabalhador”, inclusive com os sindicatos
participando de sua gestão.
Muitos leitores não sabem como funciona o FGTS,
explicar é sempre útil: o empregador recolhe 8% do salário, em nome do empregado,
a um fundo que é administrado pela Caixa Econômica Federal e por um Conselho
Curador composto de representantes das centrais sindicais, das federações
patronais e do governo. Este fundo usa os recursos para financiar habitação e
saneamento, geralmente para governos estaduais e prefeituras, a juros
subsidiados pois remunera as contas individuais a uma taxa fixa, e modesta, de
TR + 3%.
O FGTS não deixou de ser “poupança compulsória” mas
estaria mais em sintonia com os debates de hoje defini-lo como um “imposto
envergonhado”. O recolhimento continua sendo “forçado”, e como a “poupança”
assim constituída é remunerada abaixo do mercado, de modo que o FGTS se
assemelha a um empréstimo compulsório com correção monetária parcial. Portanto,
é uma espécie de imposto com receita vinculada.
Diante disso cabe perguntar: você leitor, que é o
beneficiário desses 8%, se tivesse a opção, não preferia que a empresa lhe
pagasse, digamos, 4% em dinheiro, aumentando seu salário, em vez de receber os
8% magrinhos, e depois de muito tempo? Pensando bem, você não preferia ter a
liberdade de escolher onde vai poupar, ou mesmo se você quer mesmo poupar?
Do ponto de vista das empresas, os que desembolsam os
8%, é fácil ver que este e outros encargos sobre a folha de pagamentos, acabam
funcionando como “impostos sobre o emprego”, que incentivam, de um lado a “informalidade”, onde está mais da metade da
força de trabalho no Brasil, e de outro, o uso de máquinas em vez de gente.
Como está, portanto, o FGTS não é propriamente um seguro
desemprego, nem uma previdência complementar, e nem um instrumento lá muito
efetivo de políticas públicas, embora tenha essas três missões. Será que não caberia repensar sua natureza,
aproveitando, aliás, o fato de que o FGTS quebrou?
Me parece que o mais racional a fazer seria deixar
para o Seguro Desemprego, amparado pelo FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) o
insubstituível papel de funcionar como seguro desemprego, e aproximar o FGTS,
tanto quanto possível, de um PGBL (Plano Geral de Benefícios Livres), apenas
reduzindo a mordida e melhorando a utilização dos recursos. Para quem não
conhece, PGBLs são programas de poupança individuais nos quais os recursos são
investidos onde o indivíduo determina, geralmente fundos mútuos administrados
por instituições financeiras privadas, e com rentabilidade de mercado. Se o
indivíduo não gosta do gestor, simplesmente troca de fundo ou de plano.
Geralmente o individuo pode levantar os recursos a hora que quiser, mas
perdendo, é claro, o direito à aposentadoria.
Neste espírito, um FGTS “novo”, poderia, portanto,
ser criado, através do qual a contribuição patronal seria menor, digamos 4%,
mas com remuneração variável: o dinheiro seria transformado em cotas de novos
fundos privados, dotado de portabilidade, ou seja, o titular poderia aplicar em
qualquer outro fundo da espécie, se quisesse. As empresas ficariam desoneradas
e estimuladas a aumentar o emprego, mas deve ser o trabalhador a optar pela
migração para este FGTS-N, como no caso das ações da Petrobrás.
Podia ser determinado que os fundos autorizados a
gerir recursos no âmbito do FGTS-N fossem de um tipo especial, apenas voltados
para investimentos imobiliários, incluindo, com destaque, novos instrumentos
como os fundos imobiliários e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs),
com vistas a incentivar o mercado de capitais.
O FGTS “velho” tenderia ficar com todas as suas
contas inativas, assim murchando de vez. Na verdade, o FGTS já é um grande
esqueleto. A questão é isolar os desmandos do passado, pagar o prejuízo e
cuidar do futuro.